segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O POVO DORME E A SAGA CONTINUA…

Aproveitando-se deste período mais quente do ano, em que o cidadão comum tende a exorcizar os problemas diários com uns dias de férias e de festas, os nossos governantes continuam, paulatina e metodicamente, à socapa e à sorrelfa, a implementar as medidas que lhes permitirão alcançar o escopo final do neo-liberalismo que os norteia e que consiste no desmantelamento do estado social de direito e na sua substituição pelo estado negocial selvagem. Perguntar-se-á: “com que finalidade?”. A resposta é óbvia para quem estiver minimamente atento e informado: “para fazer com que aquela percentagem de riqueza que, durante o período de consolidação do estado social, transitou das bolsas recheadas do capitalista avarento para as mãos carenciadas do pobre e do remediado retorne novamente ao doce aconchego dos cofres milionários”. Desiluda-se, pois, quem alguma vez acreditou que a figura típica do avarento aceitaria de bom grado perder uma só das suas moedas. Primeiro, através das off-shores que lhe permitiram fugir ao confisco do estado e, agora, acrescentando-lhe a política neo-liberal dos governos europeus que ele manobra na sombra sob a máscara dos mercados financeiros, está a recuperar da boca dos famintos a migalha que lhe caiu da lauta mesa.
Alguma dessa estratégia neo-liberal passa por transferir os serviços da saúde e da educação para as mãos dos privados. Trata-se de uma tarefa árdua por serem áreas de excelência do estado social, cujos benefícios para o cidadão são incalculáveis e cuja perda representará o despojamento total da sua dignidade e dos seus direitos. Daí que o governo esteja a tentar fazer essa transferência com o menor ruído possível, à socapa e à sorrelfa, como já dissemos atrás. Infelizmente parece que o povo português, embalado que anda em discursos populistas reiterados por comentadores escolhidos a dedo e sempre da mesma facção política, só perceberá o alcance dessa perda tarde de mais, quando atingirmos o ponto de não retorno.
A estratégia para proceder a esse assalto a novas áreas de obtenção de riqueza, passa, essencialmente, por três etapas:
1ª – intoxicação da opinião pública relativamente aos gastos do estado nessas áreas fazendo-nos crer que gastamos mais do que podemos. Escapar a este argumento demagógico implica perceber que as áreas prioritárias de investimento, numa sociedade que se quer e se diz civilizada, devem ser precisamente a saúde e a educação; o que é necessário é haver controlo político e judicial para evitar o desperdício, a gestão danosa e a corrupção administrativa que se tornam um sorvedouro inútil da riqueza pública. O que aconteceu em Portugal foi esse desvario sem controlo como são exemplo as parcerias público-privadas nos hospitais ou as obras da Parque Escolar; mas esse desvario não é inevitável nem é da responsabilidade do estado – tem, isso sim, que ser assacado aos governantes que gerem a res publica, “coisa pública”, duma forma incompetente e impune, quiçá com a má-fé do proveito próprio ou da criação de condições objetivas para facilitar o seu desmantelamento.
2ª – destruição dessas áreas através da redução gradual e cínica do investimento e da qualidade dos serviços prestados; é nesta fase que nos encontramos atualmente. Os cortes cegos na saúde e episódios como a subcontratação de enfermeiros por empresas privadas têm o chamado efeito de um elefante numa loja de porcelanas no que respeita às intenções do governo nesta área. Na educação, o processo é mais sub-reptício, mas, também, aparentemente menos polémico por ser menos “doloroso”; no entanto, a evidência de mais uns milhares de professores desempregados no início deste ano letivo, (alguns deles com 10, 15 ou mais anos de serviço) resulta imediatamente de diplomas legais publicados no final do ano letivo passado, quando as escolas já estavam vazias de docentes e que, talvez mais por estratégia do que por vergonha, nem sequer eram publicitados no site do Ministério. Medidas como o aumento do número de alunos por turma, a redução de horas em algumas disciplinas, a redução de tempos destinados a apoios pedagógicos e ao desempenho de cargos, a morte anunciada e iniciada dos CEF e dos Cursos Profissionais vão contribuir, inevitavelmente, para aumentar o desemprego e para reduzir a qualidade do ensino e da formação prestada aos alunos por mais que o ar seráfico do ministro da tutela nos queira convencer do contrário. Aliás, aquilo que torna estes lacaios do neo-liberalismo mais insuportáveis é a permanente desconsideração que fazem à nossa inteligência através do recurso sistemático a uma argumentação ilusionista que não resiste à mais elementar hermenêutica dos factos.
3ª – entregar à iniciativa privada a prestação generalizada destes serviços reservando ao estado um papel meramente assistencialista. Quando não restar “pedra sobre pedra” do Serviço Nacional de Saúde e da educação pública, a obtenção destes serviços com qualidade equiparável àquela de que usufruímos num passado recente só é possível no setor privado e mediante o seu pagamento integral e elevado. O direito a usufruir destes serviços e a respetiva qualidade será diretamente proporcional à quantidade de zeros à direita na conta bancária. Esta terceira etapa é implementada gradualmente e  articulada com outras medidas de esvaziamento do estado como as nacionalizações em curso.
Todo este processo poderia parecer inócuo e negligenciável não fossem as consequências inevitáveis e nefastas que terá na qualidade de vida futura do cidadão comum; é por isso que não podemos deixar-nos adormecer pelo calor do Verão, nem embalar pelo som pimba das suas festas.



José Júlio Campos