quarta-feira, 30 de maio de 2012

“FAZER MAIS COM MENOS”

Contrariando a lógica mais elementar do senso comum e a própria matemática em que é especialista, o actual ministro da educação iniciou o respectivo mandato, há um ano atrás, alardeando aos quatro ventos que o seu grande objectivo era, nem mais nem menos do que “fazer mais com menos”.
Aceitando como inevitável que a política de austeridade se reflectiria também na educação e que o “menos” era, à partida, um dado adquirido e incontornável, a curiosidade residia, apenas, em saber como é que o ministro iria concretizar o “mais”. E, ao longo deste ano, começámos a satisfazer essa curiosidade.
Para o ano lectivo em curso, começou o senhor ministro por implementar mais exames e pedir neles mais exigência, anunciando ainda mais para os próximos anos, qual panaceia milagrosa que, por si só, tornaria os alunos mais competentes e sabedores; simultaneamente decretou “menos” horas para actividades de complemento curricular, para cargos e para apoios pedagógicos de modo a pagar menos ordenados aos professores. Consequência deste “mais com menos”? Estão os professores, os técnicos do ministério e os pais aflitos com a previsão dos resultados nos exames nacionais de Matemática e Física e Química A, principalmente, a fazer fé nas classificações verificadas nos respectivos testes intermédios. Moral desta história: é impossível obter melhores resultados com menos professores, menos apoio educativo e menos projectos que motivem os alunos para a aprendizagem de determinadas disciplinas.
Está na forja, e, para já, com pequenas e envergonhadas amostras do que virá a ser, uma reforma curricular absolutamente inócua em termos pedagógicos e cuja única consequência previsível é a de lançar “mais” uns largos milhares de professores no desemprego, na sequência do único e grande objectivo ministerial – reduzir custos custe o que custar. O desemprego entre professores, diga-se, foi o que mais cresceu no último ano (“mais” de 130%) sendo que actualmente são já “mais” de doze mil os professores desempregados, para além dos “mais” de dez mil que, seguindo os doutos conselhos do mentor desta política, aproveitaram esta “oportunidade única” para mudar de vida ou para emigrar. Consequência deste “mais com menos”? Mais desemprego para os que ficam de fora e mais trabalho com menos vencimento para os que ficam na escola, com menos condições para proporcionar um ensino de qualidade aos alunos. Moral desta história: é impossível obter “mais” qualidade no ensino com “menos” professores, “menos” condições de trabalho, “menos” incentivos e “menos” respeito pela profissão.
Despachada está já a decisão a vigorar no próximo ano lectivo de aumentar o número mínimo e máximo de alunos por turma; este pode chegar aos trinta, em turmas do 5º ao 12º ano, e aos vinte e cinco, em turmas do pré-escolar; o mínimo será de vinte e seis e de vinte respectivamente, sendo também de vinte o número mínimo necessário para abrir uma disciplina de opção no Secundário. Consequências deste “mais com menos”? A ser implementada às cegas, como têm sido muitas outras, em obediência estrita aos números, esta medida poderá ter efeitos diversos, mas invariavelmente nefastos consoante o tipo de escolas – nos centros urbanos teremos salas de aula, por vezes com espaços exíguos, a abarrotar de alunos, tornando impossível um acompanhamento mais individualizado ou uma avaliação interna com o mínimo de seriedade; em concelhos menos populosos poderá acontecer que a falta de um número mínimo de alunos para abrir uma turma implique o encerramento de alguns cursos, no ensino secundário, obrigando os alunos a deslocar-se para os centros urbanos ou a frequentarem, por falta de alternativa, um curso para o qual não estão minimamente vocacionados; no limite, esta medida poderá significar, pura e simplesmente, o fim do ensino secundário em muitas vilas do interior. Moral da história: é impossível dar “mais” credibilidade ao ensino e “mais” igualdade de oportunidades a todos os alunos, com “menos” condições para fazer uma aprendizagem à medida das necessidades e com “menos” possibilidades de escolher o percurso curricular mais adequado às características pessoais.
Em conclusão: bastou um ano para que a prosaica lógica da realidade “ensinasse” ao senhor ministro uma regra básica da matemática que ele quis levianamente perverter, quiçá num presunçoso e inconsciente arrojo de génio: “mais por menos dá sempre menos”! O problema é que ainda há quem não queira ver a realidade e prefira navegar num mar de delírios.


José Júlio Campos