Contrariando
a lógica mais elementar do senso comum e a própria matemática em que é
especialista, o actual ministro da educação iniciou o respectivo mandato, há um
ano atrás, alardeando aos quatro ventos que o seu grande objectivo era, nem
mais nem menos do que “fazer mais com menos”.
Aceitando
como inevitável que a política de austeridade se reflectiria também na educação
e que o “menos” era, à partida, um dado adquirido e incontornável, a
curiosidade residia, apenas, em saber como é que o ministro iria concretizar o
“mais”. E, ao longo deste ano, começámos a satisfazer essa curiosidade.
Para
o ano lectivo em curso, começou o senhor ministro por implementar mais exames e
pedir neles mais exigência, anunciando ainda mais para os próximos anos, qual
panaceia milagrosa que, por si só, tornaria os alunos mais competentes e
sabedores; simultaneamente decretou “menos” horas para actividades de
complemento curricular, para cargos e para apoios pedagógicos de modo a pagar
menos ordenados aos professores. Consequência deste “mais com menos”? Estão os
professores, os técnicos do ministério e os pais aflitos com a previsão dos
resultados nos exames nacionais de Matemática e Física e Química A,
principalmente, a fazer fé nas classificações verificadas nos respectivos
testes intermédios. Moral desta história: é impossível obter melhores
resultados com menos professores, menos apoio educativo e menos projectos que
motivem os alunos para a aprendizagem de determinadas disciplinas.
Está
na forja, e, para já, com pequenas e envergonhadas amostras do que virá a ser,
uma reforma curricular absolutamente inócua em termos pedagógicos e cuja única
consequência previsível é a de lançar “mais” uns largos milhares de professores
no desemprego, na sequência do único e grande objectivo ministerial – reduzir
custos custe o que custar. O desemprego entre professores, diga-se, foi o que
mais cresceu no último ano (“mais” de 130%) sendo que actualmente são já “mais”
de doze mil os professores desempregados, para além dos “mais” de dez mil que,
seguindo os doutos conselhos do mentor desta política, aproveitaram esta
“oportunidade única” para mudar de vida ou para emigrar. Consequência deste
“mais com menos”? Mais desemprego para os que ficam de fora e mais trabalho com
menos vencimento para os que ficam na escola, com menos condições para
proporcionar um ensino de qualidade aos alunos. Moral desta história: é
impossível obter “mais” qualidade no ensino com “menos” professores, “menos”
condições de trabalho, “menos” incentivos e “menos” respeito pela profissão.
Despachada
está já a decisão a vigorar no próximo ano lectivo de aumentar o número mínimo
e máximo de alunos por turma; este pode chegar aos trinta, em turmas do 5º ao
12º ano, e aos vinte e cinco, em turmas do pré-escolar; o mínimo será de vinte
e seis e de vinte respectivamente, sendo também de vinte o número mínimo
necessário para abrir uma disciplina de opção no Secundário. Consequências
deste “mais com menos”? A ser implementada às cegas, como têm sido muitas outras,
em obediência estrita aos números, esta medida poderá ter efeitos diversos, mas
invariavelmente nefastos consoante o tipo de escolas – nos centros urbanos
teremos salas de aula, por vezes com espaços exíguos, a abarrotar de alunos,
tornando impossível um acompanhamento mais individualizado ou uma avaliação
interna com o mínimo de seriedade; em concelhos menos populosos poderá
acontecer que a falta de um número mínimo de alunos para abrir uma turma
implique o encerramento de alguns cursos, no ensino secundário, obrigando os
alunos a deslocar-se para os centros urbanos ou a frequentarem, por falta de
alternativa, um curso para o qual não estão minimamente vocacionados; no
limite, esta medida poderá significar, pura e simplesmente, o fim do ensino
secundário em muitas vilas do interior. Moral da história: é impossível dar
“mais” credibilidade ao ensino e “mais” igualdade de oportunidades a todos os
alunos, com “menos” condições para fazer uma aprendizagem à medida das
necessidades e com “menos” possibilidades de escolher o percurso curricular
mais adequado às características pessoais.
Em
conclusão: bastou um ano para que a prosaica lógica da realidade “ensinasse” ao
senhor ministro uma regra básica da matemática que ele quis levianamente
perverter, quiçá num presunçoso e inconsciente arrojo de génio: “mais por menos
dá sempre menos”! O problema é que ainda há quem não queira ver a realidade e
prefira navegar num mar de delírios.
José
Júlio Campos