Um dos aspetos mais preocupantes dos tempos que vivemos
é, do meu ponto de vista, a desfaçatez e falta de vergonha com que os políticos
banalizaram a mentira no seu discurso. Essa é, aliás, a razão primeira da
descredibilização quase total dos políticos perante a opinião pública
generalizada.
Para essa realidade contribuíram vários fatores como a
falta de qualidade intelectual e ética dos indivíduos que tomaram conta dos
partidos políticos, assim como a deterioração da memória do eleitorado
provocada pelo bombardeamento de mensagens políticas que provocam um misto de
confusão e repulsa que levam ao alheamento. No que respeita à comunicação
social, a grande maioria do público prefere as mensagens relacionadas com
entretenimento, desporto, coscuvilhice ou crime de “faca e alguidar” às
mensagens de natureza política; e não é só por falta de formação ou de
cidadania que isso acontece, mas, sobretudo, por cansaço e falta de paciência
para uma tal desfaçatez com que se recorre à mentira no discurso político que,
às vezes, até parece “gozo”. Esse alheamento é tanto mais preocupante na medida
em que se verifica, principalmente, na faixa etária com menos de quarenta anos
e ajuda a perceber a tendência para o significativo aumento da abstenção nas
eleições mais recentes.
Um dos exercícios mais interessantes que alguém com uma
boa dose de paciência poderá fazer é registar as afirmações que os políticos
fazem, hoje, com a maior solenidade e circunstância e compará-las com aquilo
que vão afirmar ou fazer, daqui a poucos meses, não com menor espavento e
seriedade, sobre o mesmo assunto. Se formos pessoas bem-dispostas escreveremos,
dessa forma, um divertido livro de anedotas; se formos mais coléricos, teremos,
com certeza, matéria para a realização de um manifesto anti-políticos. Este
exercício atingirá o seu esplendor se, pelo meio, os políticos em observação
transitarem da oposição para o poder ou vice-versa, sobretudo se esse poder for
absoluto como acontece atualmente no nosso país; aí é que a falta de decoro, a
desfaçatez e a sem-vergonha se tornam totalmente escandalosas e insuportáveis.
Tomemos como exemplo o atual primeiro-ministro. Todos (?) nos lembramos de que,
há um ano atrás, esse senhor, então em campanha eleitoral, afirmava
perentoriamente que jamais usaria como desculpa para as medidas que viesse a
tomar aquilo que o governo anterior tinha feito; depois de ganhar as eleições e
estar no governo, não houve medida relevante cuja necessidade não fosse
justificada com a herança deixada pelo anterior governo. Todos (?) nos
lembramos de esse senhor afirmar que “pensar em cortar os subsídios de férias e
de Natal seria um grande disparate” e que a crise tinha de ser atacada com
outras medidas; infelizmente, não disse quais e o corte desses subsídios aos
funcionários públicos e aos reformados tornou-se a grande medida de combate à
crise. Todos (?) entendemos, e bem, que esse corte, anunciado em Outubro de
2011, se aplicaria apenas nos anos de 2012 e 2013; passado apenas meio ano, e
numa altura em que a propaganda do governo vem afirmando que no final de 2013
estaremos em condições de voltar aos mercados, ou seja, com a crise debelada,
vêm-nos dizer que, afinal, o corte se prolongará para 2014, quiçá para 2015. De
mentira em mentira é previsível que amanhã nos digam que esse corte é “ad
aeternum”. Mas também, de mentira em mentira, estes senhores vão-se tornando os
coveiros da democracia porque não há democracia que resista a tanta mentira.
Sobretudo quando ela se tenta esconder sob a máscara do lapso e é veiculada com
o ar seráfico de quem encerra um poço de virtudes. O atual governo adotou a
estratégia da mentira e da matreirice (como aconteceu recentemente com a lei
que impossibilita as reformas antecipadas até 2015) na sua relação com os
cidadãos. Isso só pode contribuir para desacreditar ainda mais os políticos, a
atividade política e a democracia criando um caldo de revolta que, minando as
consciências, poderá, a médio prazo, fazer implodir o modelo social e político
vigente.
José Júlio Campos