quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

PRIMAVERA MULHER ESPERANÇA

Neste mês de Março ocorre-me salientar dois eventos que nele se repetem, pela simbologia que assumem no atual contexto e pela relação que é possível estabelecer entre eles. Trata-se do Dia Internacional da Mulher e do início da Primavera.
A celebração do Dia Internacional da Mulher deve ser entendida como um sinal de alerta para um dos fenómenos mais incompreensíveis e condenáveis da história da humanidade – a relação de subalternidade e submissão da mulher face ao homem e as dramáticas consequências daí decorrentes que todos conhecemos. Apesar dos progressos verificados, que o dia 8 de Março também pretende comemorar, o facto é que a mulher ainda continua a ser uma vítima generalizada da prepotência masculina, como facilmente constatamos se olharmos para o que se passa com o atropelo constante dos seus direitos, sejam eles os mais cívicos e elementares, como acontece em muitos povos islâmicos, ou os mais progressistas e ocidentalizados como os direitos sociais e laborais. No nosso país, por exemplo, onde teoricamente os direitos humanos em geral e os das mulheres em particular estão, desde a Revolução de Abril, culturalmente consolidados e legalmente instituídos, continuamos, na prática, a assistir à sua mais vergonhosa violação como o provam o aumento da violência doméstica contra as mulheres e a discriminação contra grávidas no meio laboral empresarial.
No dia 21 de Março inicia-se a estação do ano mais rica em termos de simbologia; a Primavera é, entre muitos outros, símbolo de juventude, símbolo de vida e símbolo de fertilidade.
Existe, pois, uma óbvia relação simbólica entre a Primavera e a mulher da qual podemos tirar algumas ilações neste mês de Março. É que mulheres e homens continuam a ter necessidade de lutar, juntos, pela consolidação plena da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre todos os seres humanos, princípios básicos e inalienáveis que a Revolução Francesa consolidou e que permitiram à mulher, pelo menos no mundo ocidentalizado, atenuar a absurda discriminação negativa de que foi vítima ao longo dos tempos. No mundo atual podemos constatar a emergência de alguns sinais de esperança, como a chamada “Primavera árabe” que pode funcionar para as mulheres de alguns povos islâmicos como ponto de partida para a sua emancipação individual e social; mas também continuam a proliferar os exemplos de retrocesso que tendem a aumentar com a situação de crise económica e social em que vamos vivendo, como sejam a violência doméstica, o assédio sexual, a discriminação e remuneração desigual no mercado de trabalho, o tráfico de mulheres e exploração da prostituição, etc.
Esta associação entre a Primavera e a mulher que ocorre no mês de Março pode ser um sinal de esperança para todos nós: acreditemos que o clima e o mundo vão melhorar; acreditemos que o frio e a maldade do homem vão atenuar-se; acreditemos que a água-chuva fertilizante da terra, em Abril será mil; acreditemos que a mulher revitalizadora e primavera da humanidade poderá cumprir o seu ideal.
O verde com que a Primavera veste a natureza é também o símbolo da esperança com que podemos vestir os nossos corações: acreditemos que podemos ter uma terra permanentemente primaveril e uma humanidade permanentemente feminina, isto é, igualmente férteis, revitalizantes, belas e criadoras de beleza.



José Júlio Campos