Neste mês de Março
ocorre-me salientar dois eventos que nele se repetem, pela simbologia que
assumem no atual contexto e pela relação que é possível estabelecer entre eles.
Trata-se do Dia Internacional da Mulher e do início da Primavera.
A celebração do Dia
Internacional da Mulher deve ser entendida como um sinal de alerta para um dos
fenómenos mais incompreensíveis e condenáveis da história da humanidade – a
relação de subalternidade e submissão da mulher face ao homem e as dramáticas
consequências daí decorrentes que todos conhecemos. Apesar dos progressos
verificados, que o dia 8 de Março também pretende comemorar, o facto é que a
mulher ainda continua a ser uma vítima generalizada da prepotência masculina,
como facilmente constatamos se olharmos para o que se passa com o atropelo
constante dos seus direitos, sejam eles os mais cívicos e elementares, como
acontece em muitos povos islâmicos, ou os mais progressistas e ocidentalizados
como os direitos sociais e laborais. No nosso país, por exemplo, onde
teoricamente os direitos humanos em geral e os das mulheres em particular
estão, desde a Revolução de Abril, culturalmente consolidados e legalmente
instituídos, continuamos, na prática, a assistir à sua mais vergonhosa violação
como o provam o aumento da violência doméstica contra as mulheres e a
discriminação contra grávidas no meio laboral empresarial.
No dia 21 de Março
inicia-se a estação do ano mais rica em termos de simbologia; a Primavera é,
entre muitos outros, símbolo de juventude, símbolo de vida e símbolo de
fertilidade.
Existe, pois, uma
óbvia relação simbólica entre a Primavera e a mulher da qual podemos tirar
algumas ilações neste mês de Março. É que mulheres e homens continuam a ter
necessidade de lutar, juntos, pela consolidação plena da liberdade, da
igualdade e da fraternidade entre todos os seres humanos, princípios básicos e
inalienáveis que a Revolução Francesa consolidou e que permitiram à mulher,
pelo menos no mundo ocidentalizado, atenuar a absurda discriminação negativa de
que foi vítima ao longo dos tempos. No mundo atual podemos constatar a
emergência de alguns sinais de esperança, como a chamada “Primavera árabe” que
pode funcionar para as mulheres de alguns povos islâmicos como ponto de partida
para a sua emancipação individual e social; mas também continuam a proliferar
os exemplos de retrocesso que tendem a aumentar com a situação de crise
económica e social em que vamos vivendo, como sejam a violência doméstica, o
assédio sexual, a discriminação e remuneração desigual no mercado de trabalho,
o tráfico de mulheres e exploração da prostituição, etc.
Esta associação
entre a Primavera e a mulher que ocorre no mês de Março pode ser um sinal de
esperança para todos nós: acreditemos que o clima e o mundo vão melhorar;
acreditemos que o frio e a maldade do homem vão atenuar-se; acreditemos que a
água-chuva fertilizante da terra, em Abril será mil; acreditemos que a mulher
revitalizadora e primavera da humanidade poderá cumprir o seu ideal.
O verde com que a
Primavera veste a natureza é também o símbolo da esperança com que podemos
vestir os nossos corações: acreditemos que podemos ter uma terra
permanentemente primaveril e uma humanidade permanentemente feminina, isto é,
igualmente férteis, revitalizantes, belas e criadoras de beleza.
José Júlio Campos