terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A DESTRUIÇÃO DO ESTADO SOCIAL (III)

A teoria da inexequibilidade do estado social tem vindo a ser alicerçada em dois argumentos que não passam de meras falácias que é imperioso desmontar.
Uma dessas falácias é o argumento de que a situação de crise em que nos encontramos se deve ao facto de “termos vivido acima das nossas possibilidades”. Trata-se, claramente, de uma falácia tecnicamente denominada de generalização precipitada, como se pode ver pelas seguintes razões. Em primeiro lugar porque se é certo que alguns terão vivido acima das suas possibilidades, iludidos pela publicidade enganosa e pela pressão para o consumo e o recurso ao crédito promovidas pelas entidades bancárias, também é verdade que isso não aconteceu com a maior parte das pessoas que se limitaram a melhorar um nível de vida que era, à data da entrada na então CEE, claramente terceiro-mundista. Portanto, no que se refere à dívida privada, o argumento apenas colhe em relação a uma parcela reduzida da população sendo, pois, falaciosa a sua generalização.
Já no que se refere à dívida pública, o argumento falha por razões ainda mais evidentes. Em primeiro lugar porque a maior parte das obras promovidas pelo Estado era absolutamente indispensável num país que padecia de décadas de atraso nas infra-estruturas existentes (em 1986 tínhamos apenas 196 Km de auto-estradas em todo o país); a construção dessas infra-estruturas era, aliás, uma condição fundamental para o aumento da produtividade e da competitividade da nossa economia. Em segundo lugar porque esse investimento do Estado foi, durante todos estes anos, o principal motor da nossa economia, ao contrário do investimento privado que ficou claramente aquém daquilo que o desenvolvimento do país exigia; e ficou aquém muito por culpa da mentalidade aforradora e socialmente insensível dos grandes empresários que tiveram como objectivo fundamental a acumulação de lucros e a sua multiplicação artificial em paraísos fiscais e mercados bolsistas em vez do seu reinvestimento na economia nacional. Além disso, o escasso reinvestimento foi feito preferencialmente no sector terciário, onde o retorno é mais imediato, mas onde a produção é quase nula; e, mais grave ainda, recorrendo preferencialmente à comercialização de produtos importados, por serem mais lucrativos, como acontece com as grandes cadeias de hipermercados, contribuindo ainda mais para a destruição da produção nacional. (Operações de cosmética mediática como a exposição de produtos nacionais na Avenida da Liberdade, patrocinada pelo Continente, não passam de formas hipócritas de lavar consciências pesadas e enganar consumidores incautos.)
Ao contrário do que muitos querem fazer crer, o investimento público não foi, na sua maior parte, desmesurado; o problema inerente e, esse sim, correctamente assacado ao investimento público tem a ver com a forma como ele foi, na generalidade, gerido pelos sucessivos governos e gestores públicos que nos desgovernaram nos últimos trinta anos; basta trazer à colação as sucessivas derrapagens nos custos finais das obras; os cambalachos nas suas adjudicações; a violação das recomendações do Tribunal de Contas; a megalomania de alguns governantes e autarcas; a satisfação de clientelas políticas e outras; enfim, a corrupção generalizada e sempre impune. Perante este cenário de má governação consecutiva não há estado social que resista; ou seja, não foi a função social do Estado que nos trouxe até esta situação, mas sim a forma danosa, incompetente e, em muitos casos, corrupta, como o Estado tem vindo a ser gerido. E esta constatação é já uma forma de desmontar a falácia demagógica da apregoada “falta de alternativas”; efectivamente existem alternativas à política de destruição do estado social que está a ser implementada no nosso país e na Europa; basta estar atento a algumas vozes lúcidas, como a do economista Paul Krugman, que vão rompendo o bloqueio a que a Comunicação Social as tem sujeitado.
Vejamos, apenas, alguns exemplos. Posto que o Estado tem vindo a ser mal gerido, a solução não é acabar com o Estado, nem com a sua função social, mas moralizar e optimizar a sua gestão. Ou seja, a solução não é, como preconiza o Governo, cortar a direito e, consequentemente, às cegas na saúde, na educação e na segurança social, mas acabar com as mordomias, os desperdícios e os “jobs for the boys” que continuam intactos; a solução não é acabar com o investimento do Estado, mas racionalizá-lo, focalizando-o para o estritamente indispensável ao desenvolvimento do país; a solução não é facilitar os despedimentos que vão aumentar o desemprego, mas implementar medidas concretas que levem à criação real de emprego. Já que os empregadores vão ver tão reforçada a sua já natural supremacia sobre os empregados, porque não exigir-lhes também algumas contrapartidas como, por exemplo, a obrigatoriedade de investir uma percentagem dos lucros (variável consoante a sua dimensão) na criação de postos de trabalho reais, na modernização das suas empresas e, porque não, na sua própria formação, já que muitos deles não têm mais do que a escolaridade mínima?
Aquilo a que estamos a assistir é à penalização dos mais indefesos e menos responsáveis pela situação actual, enquanto os verdadeiros responsáveis – governantes incompetentes, gestores públicos e grandes empresários gananciosos – continuam a ver os seus privilégios e regalias defendidos e reforçados.
As alternativas existem; assim as pessoas acordem para uma avaliação crítica e autónoma do conteúdo dos argumentos que lhes são apresentados e não continuem alienadamente agarrados a discursos formatados e demagógicos de políticos cujo único objectivo é mantê-las adormecidas para, nas suas costas, manobrarem a seu bel-prazer e em proveito próprio. Aliás, como têm feito até agora.  



José Júlio Campos