quarta-feira, 28 de setembro de 2011

CARTA ABERTA AO SIMPLES TRABALHADOR AMÉRICO

Caro Senhor,
Venho, por este meio e nesta oportunidade que aproveito, manifestar a minha mais profunda solidariedade para com Vosselência.
Tenho, para mim, que a V. recusa em contribuir para a recuperação económica e financeira do nosso país através de uma pequena taxa indexada à descomunal fortuna de Vosselência é perfeitamente natural e compreensível. Efectivamente, o que é que nós ou o Estado tem a ver com a sua riqueza? Herdou-a? É um direito que o estado social de direito lhe confere. Obteve-a com o suor do seu rosto? É outra possibilidade académica. É o resultado de muita poupança e privação? Seguramente o será, tratando-se, como Vosselência se definiu, de um simples trabalhador. Por isso, nenhum de nós tem nada a ver com a sua riqueza. Mesmo aqueles que, eventualmente, são ou foram assalariados de Vosselência ou V. antepassados e têm a sorte de ainda não ter sido despedidos,  não têm nada que ver com o assunto – o salário sempre lhes foi pago e as mais-valias que geram só o senhor tem direito a elas, ainda que eles pensem que o salário que recebem não paga sequer metade daquilo que produzem. Uns ingratos, é o que eles são. Mas é pegar ou largar, porque mão-de-obra a querer produzir ainda mais ganhando ainda menos é o que não falta; apesar de haver por aí uns malandros que não querem trabalho, que se inscrevem nos centros de emprego e que pensam que só devem trabalhar se lhes pagarem o que é justo na perspectiva deles. Mas o senhor é que sabe o que é justo em termos de salário – se assim não fosse, como é que tinha acumulado uma tão desmesurada fortuna, sendo, como diz, um simples trabalhador, quiçá um daqueles trabalhadores que declaram o ordenado mínimo às finanças, não pagam impostos e ainda usufruem de regalias sociais como livros e refeições grátis para os filhos em idade escolar? Sim, porque para se enriquecer é preciso poupar e não se podem desperdiçar as benesses que o estado social proporciona a quem tem dois olhos na testa. Que culpa tem o senhor de o Estado ser esbanjador e proporcionar esse tipo de regalias a simples trabalhadores como o senhor?
Portanto, a bem da verdade, Vosselência não deve nada à sociedade, ao estado, a todos nós. O senhor ou nasceu rico, ou para ser rico e essa condição sendo natural ou divina deve por todos ser respeitada, admirada e defendida. Isto, apesar de haver para aí uns franceses e uns americanos progressistas, para não lhes chamar outra coisa, que acham que os multimilionários como o senhor, porque beneficiaram com este modelo económico, também devem contribuir para a sua recuperação do estado de coma. Felizmente que, cá pelo nosso país, podemos contar com um governo que compreende bem as dificuldades com que Vosselência e outros ilustres semelhantes se deparam para conseguir manter o nome de Portugal na lista dos 500 mais ricos do mundo, e tratou imediatamente de por de parte essa medida estrambótica. E que, já agora, está a preparar outras medidas altamente benéficas para que nada afecte o V. enriquecimento permanente e contínuo, como é o caso da redução da TSU e dos despedimentos segundo a V. vontade. Aliás, essa americanice sugerida por um infeliz de um tal Buffet só podia fazer eco na mente de um infeliz governante chamado Obama, descendente de uma raça maioritariamente escrava num passado não muito longínquo. Como calculo, são estas modernices que fazem amuar pessoas como Vosselências e ameaçar que levam o dinheiro para outros países ou para as abençoadas off-shores. São estas e outras ideias, comparáveis ao fim da escravatura ou ao direito à reforma e a férias pagas que estão na génese do estado social, esse monstro sempre à espera que caiam umas migalhas das vossas lautas mesas. Se essa cambada de indigentes, que se intitulam de trabalhadores, fosse propriedade dos verdadeiros trabalhadores como o senhor, o estado social nem sequer precisava de existir, pois pessoas predestinadas como Vosselência se encarregariam de cuidar deles, prodigalizando-lhes comida e bordoada na medida justa de modo a manter a produtividade e a diligência. E, dessa forma, os objectivos preestabelecidos por Vosselências, seriam sempre alcançados e não haveria necessidade de proceder a despedimentos. Enfim, viveríamos no melhor dos mundos possíveis. Só tenho uma pequena dúvida nesta matéria – quem teria condições para comprar toda essa enxurrada de produtos? Mas confio que quem tivesse inteligência para criar esse mundo perfeito, também a teria para resolver esse problema menor.
Finalmente, e porque penso que já ficou bem clara a minha indignação contra o facto de alguém ter sequer ousado pensar em pedir-vos umas migalhas para ajudar a alimentar essa choldra de famintos preguiçosos, resta, apenas, um pequeno grão de dúvida a embaciar o meu espírito e que gostaria me fosse elucidada por Vosselência: como é que, sendo Vosselência um simples trabalhador, conseguiu amealhar uma fortuna na ordem dos três mil milhões de euros? É que isso deve ser caso único no mundo e todos lhe ficaríamos muito gratos se nos revelasse o seu segredo e assim pudéssemos seguir o seu exemplo.
Como cidadão sempre grato pela V. generosidade, me despeço.

José Júlio Campos