Caro
Senhor,
Venho,
por este meio e nesta oportunidade que aproveito, manifestar a minha mais
profunda solidariedade para com Vosselência.
Tenho,
para mim, que a V. recusa em contribuir para a recuperação económica e
financeira do nosso país através de uma pequena taxa indexada à descomunal
fortuna de Vosselência é perfeitamente natural e compreensível. Efectivamente,
o que é que nós ou o Estado tem a ver com a sua riqueza? Herdou-a? É um direito
que o estado social de direito lhe confere. Obteve-a com o suor do seu rosto? É
outra possibilidade académica. É o resultado de muita poupança e privação?
Seguramente o será, tratando-se, como Vosselência se definiu, de um simples
trabalhador. Por isso, nenhum de nós tem nada a ver com a sua riqueza. Mesmo
aqueles que, eventualmente, são ou foram assalariados de Vosselência ou V.
antepassados e têm a sorte de ainda não ter sido despedidos, não têm nada que ver com o assunto – o salário
sempre lhes foi pago e as mais-valias que geram só o senhor tem direito a elas,
ainda que eles pensem que o salário que recebem não paga sequer metade daquilo
que produzem. Uns ingratos, é o que eles são. Mas é pegar ou largar, porque
mão-de-obra a querer produzir ainda mais ganhando ainda menos é o que não
falta; apesar de haver por aí uns malandros que não querem trabalho, que se
inscrevem nos centros de emprego e que pensam que só devem trabalhar se lhes
pagarem o que é justo na perspectiva deles. Mas o senhor é que sabe o que é
justo em termos de salário – se assim não fosse, como é que tinha acumulado uma
tão desmesurada fortuna, sendo, como diz, um simples trabalhador, quiçá um
daqueles trabalhadores que declaram o ordenado mínimo às finanças, não pagam
impostos e ainda usufruem de regalias sociais como livros e refeições grátis
para os filhos em idade escolar? Sim, porque para se enriquecer é preciso
poupar e não se podem desperdiçar as benesses que o estado social proporciona a
quem tem dois olhos na testa. Que culpa tem o senhor de o Estado ser esbanjador
e proporcionar esse tipo de regalias a simples trabalhadores como o senhor?
Portanto,
a bem da verdade, Vosselência não deve nada à sociedade, ao estado, a todos
nós. O senhor ou nasceu rico, ou para ser rico e essa condição sendo natural ou
divina deve por todos ser respeitada, admirada e defendida. Isto, apesar de
haver para aí uns franceses e uns americanos progressistas, para não lhes
chamar outra coisa, que acham que os multimilionários como o senhor, porque
beneficiaram com este modelo económico, também devem contribuir para a sua
recuperação do estado de coma. Felizmente que, cá pelo nosso país, podemos
contar com um governo que compreende bem as dificuldades com que Vosselência e
outros ilustres semelhantes se deparam para conseguir manter o nome de Portugal
na lista dos 500 mais ricos do mundo, e tratou imediatamente de por de parte
essa medida estrambótica. E que, já agora, está a preparar outras medidas
altamente benéficas para que nada afecte o V. enriquecimento permanente e contínuo,
como é o caso da redução da TSU e dos despedimentos segundo a V. vontade.
Aliás, essa americanice sugerida por um infeliz de um tal Buffet só podia fazer
eco na mente de um infeliz governante chamado Obama, descendente de uma raça
maioritariamente escrava num passado não muito longínquo. Como calculo, são
estas modernices que fazem amuar pessoas como Vosselências e ameaçar que levam
o dinheiro para outros países ou para as abençoadas off-shores. São estas e
outras ideias, comparáveis ao fim da escravatura ou ao direito à reforma e a
férias pagas que estão na génese do estado social, esse monstro sempre à espera
que caiam umas migalhas das vossas lautas mesas. Se essa cambada de indigentes,
que se intitulam de trabalhadores, fosse propriedade dos verdadeiros
trabalhadores como o senhor, o estado social nem sequer precisava de existir,
pois pessoas predestinadas como Vosselência se encarregariam de cuidar deles,
prodigalizando-lhes comida e bordoada na medida justa de modo a manter a
produtividade e a diligência. E, dessa forma, os objectivos preestabelecidos
por Vosselências, seriam sempre alcançados e não haveria necessidade de
proceder a despedimentos. Enfim, viveríamos no melhor dos mundos possíveis. Só
tenho uma pequena dúvida nesta matéria – quem teria condições para comprar toda
essa enxurrada de produtos? Mas confio que quem tivesse inteligência para criar
esse mundo perfeito, também a teria para resolver esse problema menor.
Finalmente,
e porque penso que já ficou bem clara a minha indignação contra o facto de
alguém ter sequer ousado pensar em pedir-vos umas migalhas para ajudar a
alimentar essa choldra de famintos preguiçosos, resta, apenas, um pequeno grão
de dúvida a embaciar o meu espírito e que gostaria me fosse elucidada por
Vosselência: como é que, sendo Vosselência um simples trabalhador, conseguiu
amealhar uma fortuna na ordem dos três mil milhões de euros? É que isso deve
ser caso único no mundo e todos lhe ficaríamos muito gratos se nos revelasse o
seu segredo e assim pudéssemos seguir o seu exemplo.
Como
cidadão sempre grato pela V. generosidade, me despeço.