Há trinta ou
quarenta anos, quando era estudante e as aulas só começavam depois do dia 5 de
Outubro, o mês de Setembro era o melhor do ano.
Nesse tempo, as
férias prolongavam-se por três meses: o mês de Julho, marcado pelo muito e duro
trabalho no campo, debaixo de sol inclemente; o mês de Agosto, com a agitação
das festas e da presença cosmopolita dos emigrantes; o mês de Setembro, com a
calma moderação de todos esses anteriores exageros – do trabalho, do calor e da
agitação.
Associo o mês de
Setembro às melhores recordações das minhas férias de adolescente, precisamente
pelas coisas mais simples e bucólicas que a vida na aldeia podia, nesse tempo,
proporcionar. Arrancavam-se, de enxada na mão, as últimas batatas e as leiras
recebiam a semente da erva e do centeio que, lentamente, as pintaria de um
verde magnífico, recebidas as primeiras chuvas. A azáfama virava-se, então,
para a recolha e a seca do milho, do feijão, do frade … enquanto continuava,
por todo o lado, a sementeira da erva que iria servir de pasto às dezenas de
rebanhos de ovelhas que havia na aldeia.
Era neste mês que
se cortava e juntava em grandes montes todo o milho produzido; depois, quase
sempre à noite e pela noite fora, procedia-se às famosas desfolhadas, ou
escanadas, como se dizia na minha aldeia. Lembro-me de ir a algumas dessas
desfolhadas, ainda criança, a umas quintas de familiares que distavam umas
largas centenas de metros; íamos em grupos, candeias de petróleo na mão e risos
a acompanhar as histórias dos mais velhos e as travessuras dos mais novos. A
desfolhada era um momento especial de trabalho e convívio. A luz fraca dos
candeeiros empoleirados no cimo do monte do milho produzia uma penumbra, onde
apenas a voz identificava cada um dos presentes. Este anonimato visual estimulava
e desinibia a comunicação, enquanto as espigas iam sendo despidas das várias
camisas que as vestiam. Todos cantavam, todos contavam histórias, todos se
sentiam livres e corajosos sob o efeito inebriante da noite. Para muitos era a
ocasião, todo o ano sonhada, de pedir namoro à cachopa fugidia. Para os mais
novos, enquanto o sono não nos enrodilhava sobre os folhelhos esventrados, era
o momento privilegiado de estar entre os adultos e de nos iniciarmos em muitos
dos seus segredos e mistérios.
Acabada a
sementeira das ervas e arrumado o milho em enormes arcas, começava-se a juntar
a lenha com que haveria de se enfrentar o rigoroso e prolongado Inverno. Uma
das tarefas que mais prazer me dava, quando a força dos braços o começou a
permitir, era transformar em cavacas os troncos de pinheiro ou carvalho
utilizando, com esforço e perícia, um grande e pesado machado a que chamávamos
“malho”.
Recordo, também,
com nostalgia, a produção de cancelas que serviriam para delimitar os currais
das ovelhas e a quantidade de pasto novo que se lhes dava cada dia; todos os
anos era necessário renovar o acervo deste objecto indispensável numa
pastorícia direccionada para a produção do genuíno queijo da Serra. Aliás, se a
partir de Abril as tarefas eram essencialmente agrícolas, a partir de Setembro
o rebanho passava a ser a principal fonte de trabalho e de receita. Vendidas as
crias pelos finais de Outubro, iniciava-se a época da ordenha, de manhã e à
noite, e da produção do queijo, tarefas estas que exigiam muita dedicação,
trabalho e saber pormenorizado que só se aprendia fazendo.
Hoje, não existe um
único rebanho na minha aldeia; já ninguém vive da produção do queijo; a pouca
agricultura que ainda se faz é de mera subsistência.
Que saudades desses
meses de Setembro, em que cada pequeno ou grande trabalho tinha um sabor
especial e a vida decorria na ilusória pacatez de um tempo inesgotável. Hoje,
resta apenas o clima ameno e a paisagem amarelecida duma natureza que se repete
e multiplica, aparentemente alheia aos desvarios e transformações do modo de
viver humano.
José Júlio Campos