sexta-feira, 22 de julho de 2011

MUDAR … É PRECISO (Parte II)

(Continuação da edição anterior)
A escola actual tem como preocupação fundamental a formação (ou será melhor dizer “formatação”?) dos jovens para duas coisas: consumir e produzir; prepará-los para serem uma espécie de máquinas, ou robots, cujo destino é traçado “ab initium” como se lhes fosse incorporado um chip e funcionassem por controlo remoto. Esse destino é serem peças de uma engrenagem superiormente comandada, não pela inteligência despótica do big brother orwelliano, mas pela avareza maquiavélica dos senhores da alta finança internacional. Estes encarregam-se, fazendo uso do seu poderio financeiro, de garantir a existência de uma espécie de “capatazes” cujo papel é implementar no terreno a ideologia que interessa aos seus senhores. Esses “capatazes” são uma classe intermédia, entre os “donos do mundo” e os seus “escravos contemporâneos”, que é composta por académicos interesseiros, políticos gananciosos, jornalistas e comentadores pusilânimes que usam o poder mediático que lhes é posto nas mãos por esses “donos do mundo” para levarem a cabo a sua tarefa de fazer com que os “escravos” pensem que a sua obrigação é ser escravos e nem sequer pensem, alguma vez, ao de leve que seja, em revoltar-se contra essa situação.
Todo o percurso escolar do aluno é pensado no sentido de o dotar de um conjunto de competências que lhe permitam integrar-se no aparelho produtivo – interessa, apenas, que aprenda uma profissão, ou se prepare para a desempenhar de forma eficaz; a própria escola tem como preocupação “produzir” técnicos altamente qualificados e é gerida como se tivesse que dar lucros. Simultaneamente, importa que essas “máquinas humanas” sejam alimentadas convenientemente e não levantem ondas nem se lembrem de ser diferentes no modo de viver, ou nas ambições, como “a formiga Z” (aconselho vivamente que vejam o filme com esse nome realizado por Eric Darnell e Tim Johnson). Importa, também, que essas mesmas máquinas sejam educadas para consumir, por duas razões convergentes: enquanto alimentam a sua ilusão de bem-estar com o “ter” artificial, anestesiam o seu ego e mantêm-se dóceis às ordens de quem os controla – ninguém se revolta de barriga cheia; enquanto compram os produtos que eles próprios produzem estão a garantir que a engrenagem não pára – produzir, consumir e … para uns poucos (muito poucos) … lucrar. É assim que funciona o sistema que nos trouxe até este beco sem saída.
Existirão alternativas?
Sinceramente, é preciso ser muito sonhador para acreditar que sim. Acredito que, no que respeita à educação, a alternativa passa por substituir o produzir e o consumir pelo criar e pelo pensar. O aluno, em vez de ser visto e tratado como um indivíduo que se prepara para ser uma máquina que produz em série, deve ser entendido como uma pessoa que deve ser estimulada no sentido de ser capaz de potenciar toda a sua capacidade empreendedora e energia criativa. Em vez de vermos a criança como uma unidade social que deve aprender a conformar-se ao grupo e a afirmar-se pela quantidade de bens que consegue adquirir, devemos entendê-la como um ser único e irrepetível que constrói a sua capacidade de questionar, reflectir, desejar, tomar decisões, enfim, ser um homem ou uma mulher capaz de pensar por si e de agir de forma autónoma.
Enquanto a escola não alterar estes pressupostos ideológicos subjacentes à educação e ao ensino, dificilmente a tão apregoada e necessária mudança será mais do que uma mera e vã palavra que fica bem no discurso dos políticos.



José Júlio Campos