(Continuação da edição anterior)
A escola actual tem como
preocupação fundamental a formação (ou será melhor dizer “formatação”?) dos
jovens para duas coisas: consumir e produzir; prepará-los para serem uma
espécie de máquinas, ou robots, cujo destino é traçado “ab initium” como se
lhes fosse incorporado um chip e funcionassem por controlo remoto. Esse destino
é serem peças de uma engrenagem superiormente comandada, não pela inteligência
despótica do big brother orwelliano, mas pela avareza maquiavélica dos senhores
da alta finança internacional. Estes encarregam-se, fazendo uso do seu poderio
financeiro, de garantir a existência de uma espécie de “capatazes” cujo papel é
implementar no terreno a ideologia que interessa aos seus senhores. Esses
“capatazes” são uma classe intermédia, entre os “donos do mundo” e os seus “escravos
contemporâneos”, que é composta por académicos interesseiros, políticos
gananciosos, jornalistas e comentadores pusilânimes que usam o poder mediático que
lhes é posto nas mãos por esses “donos do mundo” para levarem a cabo a sua
tarefa de fazer com que os “escravos” pensem que a sua obrigação é ser escravos
e nem sequer pensem, alguma vez, ao de leve que seja, em revoltar-se contra
essa situação.
Todo o percurso escolar do aluno
é pensado no sentido de o dotar de um conjunto de competências que lhe permitam
integrar-se no aparelho produtivo – interessa, apenas, que aprenda uma
profissão, ou se prepare para a desempenhar de forma eficaz; a própria escola tem
como preocupação “produzir” técnicos altamente qualificados e é gerida como se
tivesse que dar lucros. Simultaneamente, importa que essas “máquinas humanas” sejam
alimentadas convenientemente e não levantem ondas nem se lembrem de ser
diferentes no modo de viver, ou nas ambições, como “a formiga Z” (aconselho
vivamente que vejam o filme com esse nome realizado por Eric Darnell e Tim
Johnson). Importa, também, que essas mesmas máquinas sejam educadas para
consumir, por duas razões convergentes: enquanto alimentam a sua ilusão de
bem-estar com o “ter” artificial, anestesiam o seu ego e mantêm-se dóceis às
ordens de quem os controla – ninguém se revolta de barriga cheia; enquanto
compram os produtos que eles próprios produzem estão a garantir que a engrenagem
não pára – produzir, consumir e … para uns poucos (muito poucos) … lucrar. É
assim que funciona o sistema que nos trouxe até este beco sem saída.
Existirão alternativas?
Sinceramente, é preciso ser muito
sonhador para acreditar que sim. Acredito que, no que respeita à educação, a
alternativa passa por substituir o produzir e o consumir pelo criar e pelo
pensar. O aluno, em vez de ser visto e tratado como um indivíduo que se prepara
para ser uma máquina que produz em série, deve ser entendido como uma pessoa
que deve ser estimulada no sentido de ser capaz de potenciar toda a sua
capacidade empreendedora e energia criativa. Em vez de vermos a criança como
uma unidade social que deve aprender a conformar-se ao grupo e a afirmar-se
pela quantidade de bens que consegue adquirir, devemos entendê-la como um ser
único e irrepetível que constrói a sua capacidade de questionar, reflectir,
desejar, tomar decisões, enfim, ser um homem ou uma mulher capaz de pensar por
si e de agir de forma autónoma.
Enquanto a escola não alterar
estes pressupostos ideológicos subjacentes à educação e ao ensino, dificilmente
a tão apregoada e necessária mudança será mais do que uma mera e vã palavra que
fica bem no discurso dos políticos.
José
Júlio Campos