A
recente mudança na governação do País apresenta-se, para alguns, como um sinal
de esperança e de crença na resolução dos problemas que nos afectam; para
outros trata-se, apenas, de mudar os nomes para continuar tudo na mesma, já que
o poder de decisão se encontra alienado a Bruxelas desde 1986 e as medidas
para, supostamente, sair da crise, foram determinadas pela tríade FMI, FEEF e
BCE. A partir daqui o que nos resta? Também a esta pergunta há quem responda, à
antiga portuguesa, “é pagar e não bufar”, enquanto outros, menos conformistas,
alvitram que devemos pagar, sim, mas “bufar” qualquer coisita, pelo menos
quanto aos prazos e talvez quanto aos juros, porque não?... Enfim … Estamos
numa situação difícil, de resolução complexa; e, com o exemplo da Grécia a
pairar sobre as nossas cabeças, qual espada de Dâmocles, as respostas
escasseiam e as certezas resumem-se apenas a uma: é preciso mudar.
Mas
mudar o quê? … Antes de mais, mudar mentalidades. Tarefa complicada, sem dúvida
… Sobretudo para as gerações de meia idade habituadas a viver num modelo de
organização social e económico consumista e criador de ilusões de crescimento e
bem-estar sem fim, onde o enriquecimento fácil está ao alcance de qualquer um.
Foi isto que nos incutiram. Estamos, agora, a “cair na real” e a darmo-nos
conta que, afinal, comprar tudo a crédito sujeito a juros altíssimos e saldar
tudo a troco de contrair dívidas para pagar outras dívidas, serve apenas para
engordar as sanguessugas da banca nacional e internacional. Demasiado tarde e,
talvez, da pior maneira possível, para alguns, estamos a dar-nos conta de que,
afinal, essa promessa de viver à grande não era mais do que um presente envenenado
para nos esmifrarem o pouco que tínhamos, a troco de uns pratos de lentilhas.
Aliás, o mesmo que a Alemanha e os grandes da Europa nos fizeram com a entrada
na União Europeia – a troco de subsídios às carradas, a fundo perdido e sem fim
à vista, levaram-nos à auto-destruição do sector primário (agricultura e pescas)
e colocaram-nos na situação actual de termos de lhes comprar a eles todos os
bens que nessas áreas deixámos de produzir. Tratou-se de uma magistral
inversão, ou melhor, perversão, do famoso provérbio chinês que diz: “se vires
um pedinte, em vez de lhe dares um peixe, ensina-o a pescar”! O que os grandes
da Europa fizeram foi exactamente o contrário: viciaram-nos em “peixe” a troco
de “desaprendermos de pescar”! E o que é curioso é que este género de situação
nem sequer é novo na nossa história – fizemos o mesmo quando, após o período
áureo dos Descobrimentos, esbanjámos o ouro do Brasil e outras riquezas, a
troco de luxos importados da Flandres e de Veneza, em vez de investirmos no
progresso do nosso próprio País. Das duas uma e porque não as duas: ou, enquanto
povo, somos uns estroinas que nem sequer aprendem com os próprios erros, ou,
então, temos tido muito azar com a classe política que em tempos nos era
imposta e ultimamente temos podido escolher! O certo é que, mais uma vez,
caímos no engodo – trocámos a certeza do pouco que tínhamos, mas era nosso,
pela ilusão de integrarmos o “grupo da frente” e vivermos como eles,
exactamente “à grande e à francesa”, enquanto nos tiravam os anéis para agora
nos estarem a exigir os dedos.
E
agora? … Provavelmente, mais do que (ou antes de?...) entrarmos em lutas
armadas e revoluções populares, devemos fazer um esforço de mudança – mudar
formas de viver e de pensar, enquanto preparamos as gerações mais jovens para
viverem, de uma forma minimamente equilibrada e aprazível, num mundo que se
prevê muito mais hostil, em todos os aspectos, do que aquele em que,
ilusoriamente, nos fizeram acreditar. E isso implica, a meu ver, uma alteração
radical nos pressupostos ideológicos subjacentes ao modelo de educação e de
ensino que tem vindo a ser implementado nas nossas escolas há mais de vinte
anos.
(Continua
na próxima edição)