quarta-feira, 22 de junho de 2011

MUDAR … É PRECISO (Parte I)

A recente mudança na governação do País apresenta-se, para alguns, como um sinal de esperança e de crença na resolução dos problemas que nos afectam; para outros trata-se, apenas, de mudar os nomes para continuar tudo na mesma, já que o poder de decisão se encontra alienado a Bruxelas desde 1986 e as medidas para, supostamente, sair da crise, foram determinadas pela tríade FMI, FEEF e BCE. A partir daqui o que nos resta? Também a esta pergunta há quem responda, à antiga portuguesa, “é pagar e não bufar”, enquanto outros, menos conformistas, alvitram que devemos pagar, sim, mas “bufar” qualquer coisita, pelo menos quanto aos prazos e talvez quanto aos juros, porque não?... Enfim … Estamos numa situação difícil, de resolução complexa; e, com o exemplo da Grécia a pairar sobre as nossas cabeças, qual espada de Dâmocles, as respostas escasseiam e as certezas resumem-se apenas a uma: é preciso mudar.
Mas mudar o quê? … Antes de mais, mudar mentalidades. Tarefa complicada, sem dúvida … Sobretudo para as gerações de meia idade habituadas a viver num modelo de organização social e económico consumista e criador de ilusões de crescimento e bem-estar sem fim, onde o enriquecimento fácil está ao alcance de qualquer um. Foi isto que nos incutiram. Estamos, agora, a “cair na real” e a darmo-nos conta que, afinal, comprar tudo a crédito sujeito a juros altíssimos e saldar tudo a troco de contrair dívidas para pagar outras dívidas, serve apenas para engordar as sanguessugas da banca nacional e internacional. Demasiado tarde e, talvez, da pior maneira possível, para alguns, estamos a dar-nos conta de que, afinal, essa promessa de viver à grande não era mais do que um presente envenenado para nos esmifrarem o pouco que tínhamos, a troco de uns pratos de lentilhas. Aliás, o mesmo que a Alemanha e os grandes da Europa nos fizeram com a entrada na União Europeia – a troco de subsídios às carradas, a fundo perdido e sem fim à vista, levaram-nos à auto-destruição do sector primário (agricultura e pescas) e colocaram-nos na situação actual de termos de lhes comprar a eles todos os bens que nessas áreas deixámos de produzir. Tratou-se de uma magistral inversão, ou melhor, perversão, do famoso provérbio chinês que diz: “se vires um pedinte, em vez de lhe dares um peixe, ensina-o a pescar”! O que os grandes da Europa fizeram foi exactamente o contrário: viciaram-nos em “peixe” a troco de “desaprendermos de pescar”! E o que é curioso é que este género de situação nem sequer é novo na nossa história – fizemos o mesmo quando, após o período áureo dos Descobrimentos, esbanjámos o ouro do Brasil e outras riquezas, a troco de luxos importados da Flandres e de Veneza, em vez de investirmos no progresso do nosso próprio País. Das duas uma e porque não as duas: ou, enquanto povo, somos uns estroinas que nem sequer aprendem com os próprios erros, ou, então, temos tido muito azar com a classe política que em tempos nos era imposta e ultimamente temos podido escolher! O certo é que, mais uma vez, caímos no engodo – trocámos a certeza do pouco que tínhamos, mas era nosso, pela ilusão de integrarmos o “grupo da frente” e vivermos como eles, exactamente “à grande e à francesa”, enquanto nos tiravam os anéis para agora nos estarem a exigir os dedos.
E agora? … Provavelmente, mais do que (ou antes de?...) entrarmos em lutas armadas e revoluções populares, devemos fazer um esforço de mudança – mudar formas de viver e de pensar, enquanto preparamos as gerações mais jovens para viverem, de uma forma minimamente equilibrada e aprazível, num mundo que se prevê muito mais hostil, em todos os aspectos, do que aquele em que, ilusoriamente, nos fizeram acreditar. E isso implica, a meu ver, uma alteração radical nos pressupostos ideológicos subjacentes ao modelo de educação e de ensino que tem vindo a ser implementado nas nossas escolas há mais de vinte anos.
(Continua na próxima edição)

José Júlio Campos