Recentemente fomos confrontados
com mais uns atentados ao bom gosto e ao bom senso dos portugueses, perpetrados
pelos canais privados de televisão ditos generalistas. Na sua luta maquiavélica
pela liderança das audiências, vale tudo, inclusive tirar olhos; ou, pelo
menos, meter os dedos pelos olhos do telespectador, retirando-lhe, por aí, o
pouco discernimento e consciência crítica que ainda lhe restarão.
É certo que desde o “Big Brother” tudo é possível, apesar de
parecer difícil descer mais baixo; no entanto, a capacidade dos grandes
produtores de entretenimento televisivo internacionais continua a ser capaz de
criar sub-produtos desse execrável programa que nada lhe ficam a dever.
Um deles é um suposto concurso de
gordos apresentado na SIC pela rainha da sucata televisiva. Não deixa de ser
estranho que uma dúzia de big gordos e gordas se disponham a mostrar na
televisão aquilo que habitualmente é motivo de vergonha em função do
estereótipo de beleza em vigor na sociedade actual. O chorudo prémio para o
vencedor é um “bom” motivo, mas … e os outros? Também não se percebe muito bem
como é que um programa com estes ingredientes consegue ser rentável em termos
de audiências, mas a curiosidade mórbida pelo sofrimento alheio, ou a tendência
para sentir menores os nossos males quando os vemos aumentados nos outros,
talvez ajude a compreender tal facto. Aquilo que não se pode aceitar, de modo
algum, é a exploração abjecta quer de uma doença, como é a obesidade, e do
sofrimento inerente, quer do pouco educado gosto do público e dos seus
recalcados sentimentos. Parafraseando o saudoso Diácono Remédios: “Não havia
necessidade! Qualquer dia ainda fazem concursos na televisão a ver quem tem o
maior tumor no pâncreas; ou a ver quem chora mais por ter ficado incontinente!
Não havia necessidade!”
Como nestas coisas da
concorrência televisiva o lema é: “quanto pior, melhor”, a TVI não se ficou
atrás e vai daí ataca-nos com um programa em que os “convencidamente
civilizados” têm de se integrar junto dos “convencidamente selvagens”. O mau
gosto e o preconceito racista e civilizacional deste programa só conseguem ser
superados pela presença inenarrável de um dos elementos do elenco de suposta
gente fina que é posta a viver na selva. Gostava, aliás, de perguntar que crime
teremos nós cometido para, ciclicamente, vermos a nossa saúde mental ser
atacada por esse ícone das aberrações nacionais. O recurso a essa espécie de
criatura humana, que, por decência, me abstenho de qualificar, para obter
audiências, é a prova evidente de que a televisão não olha a meios para
alcançar os fins.
Infelizmente, esses meios têm a
ver com algo que vai alastrando na sociedade actual como fogo na savana: a
incapacidade para pensar de forma autónoma e a falta de educação estética – é
que os gostos não se discutem, dizem; mas devem educar-se, digo eu. E nisto
todos somos responsáveis – pais, professores e adultos em geral.
Acrescentaria, para terminar,
que, a concretizar-se o velho desejo de alguns sectores da política portuguesa,
de privatizar o canal público de televisão existente actualmente, tal
contribuirá, apenas, para elevar ao triplo aquilo que até aqui tem sido a
dobrar – o aproveitamento maldoso do baixo nível cultural da população e dos
sentimentos mais mesquinhos do ser humano, para encher os cofres dos
proprietários dos canais televisivos. Será isso que nós queremos?
José Júlio Campos