segunda-feira, 30 de maio de 2011

A TELEVISÃO E AS AUDIÊNCIAS

Recentemente fomos confrontados com mais uns atentados ao bom gosto e ao bom senso dos portugueses, perpetrados pelos canais privados de televisão ditos generalistas. Na sua luta maquiavélica pela liderança das audiências, vale tudo, inclusive tirar olhos; ou, pelo menos, meter os dedos pelos olhos do telespectador, retirando-lhe, por aí, o pouco discernimento e consciência crítica que ainda lhe restarão.
É certo que desde o “Big Brother” tudo é possível, apesar de parecer difícil descer mais baixo; no entanto, a capacidade dos grandes produtores de entretenimento televisivo internacionais continua a ser capaz de criar sub-produtos desse execrável programa que nada lhe ficam a dever.
Um deles é um suposto concurso de gordos apresentado na SIC pela rainha da sucata televisiva. Não deixa de ser estranho que uma dúzia de big gordos e gordas se disponham a mostrar na televisão aquilo que habitualmente é motivo de vergonha em função do estereótipo de beleza em vigor na sociedade actual. O chorudo prémio para o vencedor é um “bom” motivo, mas … e os outros? Também não se percebe muito bem como é que um programa com estes ingredientes consegue ser rentável em termos de audiências, mas a curiosidade mórbida pelo sofrimento alheio, ou a tendência para sentir menores os nossos males quando os vemos aumentados nos outros, talvez ajude a compreender tal facto. Aquilo que não se pode aceitar, de modo algum, é a exploração abjecta quer de uma doença, como é a obesidade, e do sofrimento inerente, quer do pouco educado gosto do público e dos seus recalcados sentimentos. Parafraseando o saudoso Diácono Remédios: “Não havia necessidade! Qualquer dia ainda fazem concursos na televisão a ver quem tem o maior tumor no pâncreas; ou a ver quem chora mais por ter ficado incontinente! Não havia necessidade!”
Como nestas coisas da concorrência televisiva o lema é: “quanto pior, melhor”, a TVI não se ficou atrás e vai daí ataca-nos com um programa em que os “convencidamente civilizados” têm de se integrar junto dos “convencidamente selvagens”. O mau gosto e o preconceito racista e civilizacional deste programa só conseguem ser superados pela presença inenarrável de um dos elementos do elenco de suposta gente fina que é posta a viver na selva. Gostava, aliás, de perguntar que crime teremos nós cometido para, ciclicamente, vermos a nossa saúde mental ser atacada por esse ícone das aberrações nacionais. O recurso a essa espécie de criatura humana, que, por decência, me abstenho de qualificar, para obter audiências, é a prova evidente de que a televisão não olha a meios para alcançar os fins.
Infelizmente, esses meios têm a ver com algo que vai alastrando na sociedade actual como fogo na savana: a incapacidade para pensar de forma autónoma e a falta de educação estética – é que os gostos não se discutem, dizem; mas devem educar-se, digo eu. E nisto todos somos responsáveis – pais, professores e adultos em geral.
Acrescentaria, para terminar, que, a concretizar-se o velho desejo de alguns sectores da política portuguesa, de privatizar o canal público de televisão existente actualmente, tal contribuirá, apenas, para elevar ao triplo aquilo que até aqui tem sido a dobrar – o aproveitamento maldoso do baixo nível cultural da população e dos sentimentos mais mesquinhos do ser humano, para encher os cofres dos proprietários dos canais televisivos. Será isso que nós queremos?



José Júlio Campos