quarta-feira, 23 de março de 2011

O EXEMPLO DO JAPÃO

Nos já longínquos anos 80, enquanto aluno da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, tive oportunidade de ler uma obra intitulada “O desafio mundial”, escrita por um político, ensaísta e jornalista francês chamado Jean-Jacques Servan-Schreiber. Dessa leitura ficou, para sempre, a recordação da forma como o autor descreve, entre outros aspectos da política mundial, o chamado “milagre japonês”; efectivamente, uma grande parte dessa obra consiste em analisar o desenvolvimento tecnológico do Japão por meio da informatização, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. O Japão mantivera-se em guerra com os Aliados, mesmo após a rendição da Alemanha, alegadamente devido às ambições megalómanas do seu Imperador Hirohito; no entanto, a guerra iria acabar para os nipónicos da pior maneira possível com a destruição provocada pelas bombas atómicas lançadas pelos americanos, em Hisoshima e Nagasaki, em Agosto de 1945, e a consequente rendição incondicional. A participação nesta guerra e o seu desenlace tiveram como principais consequências a delapidação da riqueza do país no brutal investimento militar realizado e a implosão de um orgulho próprio de uma civilização milenar.
Como se explica, então, que poucas décadas volvidas sobre esse caos, o Japão se tenha guindado ao estatuto de terceira economia mundial? Segundo Servan-Schreiber, esse milagre assentou em três virtudes típicas do povo japonês: inteligência, capacidade de organização e espírito colectivo; e numa matéria-prima em que o Japão é rico: o silício existente na areia das suas abundantes praias, material usado na produção do famoso chip – circuito integrado – inventado por Jack Kilby e Robert Noyce. O consequente desenvolvimento da electrónica e da informática e a sua aplicação na automação e robotização industrial, associado à enorme disponibilidade para o trabalho e ao importante apoio económico dos Estados Unidos levaram este povo a renascer das cinzas atómicas em que tinha mergulhado e a tornar-se um dos líderes da economia mundial a partir dos anos 70. Curiosamente, este fenómeno da progressiva introdução da robótica e da informática nos processos de produção não implicou o despedimento em massa dos recursos humanos, ao contrário do que aconteceu nos países ocidentais. As empresas japonesas, em vez de despedirem os operários, continuaram a pagar-lhes, investindo na sua formação, de modo a serem capazes de lidar com as novas tecnologias e até mesmo a poderem dedicar-se à investigação no sentido de as aperfeiçoar. Este enorme investimento privado contrasta claramente com a atitude dos grandes empresários ocidentais, cujo objectivo é apenas o de diminuir os custos da produção, nem que isso implique despedimentos em massa, de modo a aumentar sempre as mais-valias e serem os únicos s usufruir delas. Ao invés deste sentido colectivo do empresário japonês, o grande empresário ocidental manifesta uma mentalidade individualista cuja única motivação parece ser o de acumular o capital suficiente para aparecer na lista dos 500 mais ricos do mundo da revista Forbes.
Infelizmente, o Japão encontra-se, hoje, por motivos diferentes dos evocados, numa situação, em muitos aspectos, semelhante. Acredito que os japoneses vão, novamente, dar a volta por cima. Mas gostava, principalmente, que nós, portugueses e ocidentais, conseguíssemos seguir o exemplo japonês: sermos inteligentes para aproveitar e potencializar aquilo que temos de bom e positivo, que é muito, e sermos capazes de perceber que o bem-estar individual só faz sentido se for uma consequência do bem-estar de todos.

José Júlio Campos