Nos
já longínquos anos 80, enquanto aluno da Faculdade de Letras da Universidade
Clássica de Lisboa, tive oportunidade de ler uma obra intitulada “O desafio
mundial”, escrita por um político, ensaísta e jornalista francês chamado Jean-Jacques
Servan-Schreiber. Dessa leitura ficou, para sempre, a recordação da forma como
o autor descreve, entre outros aspectos da política mundial, o chamado “milagre
japonês”; efectivamente, uma grande parte dessa obra consiste em analisar o
desenvolvimento tecnológico do Japão por meio da informatização, nas décadas
que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. O Japão mantivera-se em guerra com os
Aliados, mesmo após a rendição da Alemanha, alegadamente devido às ambições
megalómanas do seu Imperador Hirohito; no entanto, a guerra iria acabar para os
nipónicos da pior maneira possível com a destruição provocada pelas bombas
atómicas lançadas pelos americanos, em Hisoshima e Nagasaki, em Agosto de 1945,
e a consequente rendição incondicional. A participação nesta guerra e o seu
desenlace tiveram como principais consequências a delapidação da riqueza do
país no brutal investimento militar realizado e a implosão de um orgulho
próprio de uma civilização milenar.
Como
se explica, então, que poucas décadas volvidas sobre esse caos, o Japão se
tenha guindado ao estatuto de terceira economia mundial? Segundo
Servan-Schreiber, esse milagre assentou em três virtudes típicas do povo
japonês: inteligência, capacidade de organização e espírito colectivo; e numa
matéria-prima em que o Japão é rico: o silício existente na areia das suas
abundantes praias, material usado na produção do famoso chip – circuito
integrado – inventado por Jack Kilby e Robert Noyce. O consequente
desenvolvimento da electrónica e da informática e a sua aplicação na automação
e robotização industrial, associado à enorme disponibilidade para o trabalho e
ao importante apoio económico dos Estados Unidos levaram este povo a renascer
das cinzas atómicas em que tinha mergulhado e a tornar-se um dos líderes da
economia mundial a partir dos anos 70. Curiosamente, este fenómeno da
progressiva introdução da robótica e da informática nos processos de produção
não implicou o despedimento em massa dos recursos humanos, ao contrário do que
aconteceu nos países ocidentais. As empresas japonesas, em vez de despedirem os
operários, continuaram a pagar-lhes, investindo na sua formação, de modo a
serem capazes de lidar com as novas tecnologias e até mesmo a poderem
dedicar-se à investigação no sentido de as aperfeiçoar. Este enorme
investimento privado contrasta claramente com a atitude dos grandes empresários
ocidentais, cujo objectivo é apenas o de diminuir os custos da produção, nem
que isso implique despedimentos em massa, de modo a aumentar sempre as
mais-valias e serem os únicos s usufruir delas. Ao invés deste sentido
colectivo do empresário japonês, o grande empresário ocidental manifesta uma
mentalidade individualista cuja única motivação parece ser o de acumular o
capital suficiente para aparecer na lista dos 500 mais ricos do mundo da revista
Forbes.
Infelizmente,
o Japão encontra-se, hoje, por motivos diferentes dos evocados, numa situação,
em muitos aspectos, semelhante. Acredito que os japoneses vão, novamente, dar a
volta por cima. Mas gostava, principalmente, que nós, portugueses e ocidentais,
conseguíssemos seguir o exemplo japonês: sermos inteligentes para aproveitar e
potencializar aquilo que temos de bom e positivo, que é muito, e sermos capazes
de perceber que o bem-estar individual só faz sentido se for uma consequência
do bem-estar de todos.