quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

INDIVIDUALISMO E CRISE

A crise tornou-se um tema incontornável nos dias que passam; é provável que quanto mais falamos dela mais a acentuamos e mais real se torna em virtude da sua interiorização. No entanto, assobiar para o lado como se ela não existisse também não parece ser a atitude mais profícua para a ultrapassar, ou minimizar os seus efeitos.
As explicações para a crise nascem todos os dias, quase por geração espontânea, quais cogumelos, ainda que venenosos a maior parte! Para uns, a origem da crise é o desperdício, para outros é a corrupção; há quem pense que a culpa é do capitalismo, outros contrapõem que é dos malandros que não querem trabalhar. As explicações são tão diversificadas que até podem atingir as raias do anedótico, como aquela que, há dias, brotou da mente iluminada de um político-comentador televisivo ao afirmar que a própria banca estava em crise (abençoada crise que lhe proporciona lucros escandalosos todos os anos) devido ao facto de ter de acudir às necessidades do Estado. O facto indesmentível de a crise se ter começado a desenhar quando o Estado teve de injectar milhares de milhões de euros numa instituição bancária em vias de falir devido a gestão danosa (corrupção) escapuliu-se dessa mente iluminada por artes mágicas ou demoníacas. Assim como o que aconteceu de semelhante, em 2008, na economia americana, com a falência de alguns bancos e a intervenção do Estado para salvar outros juntamente com grandes empresas deles dependentes.
Este género de episódios opinativos, aliás comuns no quotidiano mediático português, mais não é do que o reflexo do nível politicamente baixo a que descemos; prolifera a demagogia, a mentira, o oportunismo e escasseia a honestidade, o amor à verdade, a coerência. No meio de tudo isto, valha-nos o facto de que, ao contrário de quase tudo o resto, a opinião não pagar imposto! E mais vale um chorrilho de opiniões disparatadas que podemos analisar criticamente, do que a imposição de uma verdade oficial e dogmática a que todos tenhamos de aderir.
Assim sendo, aproveito para opinar que uma das causas para a crise que vivemos e que tende a tornar-se estruturante da sociedade actual é o individualismo promovido e assimilado na nossa cultura ocidental. Efectivamente é o individualismo que está na origem da ganância que leva ao roubo, à corrupção e à exploração de outros seres humanos; é o individualismo que promove o oportunismo daqueles que apenas consideram como sendo boas ou verdadeiras as acções ou opiniões que vão de encontro aos seus interesses; é o individualismo que sustenta o egoísmo daqueles que não se importam de destruir o planeta que vamos deixar para as gerações vindouras, desde que as suas fábricas e empresas continuem a gerar lucros desmesurados.
O individualismo, que consiste no sacrifício dos interesses colectivos aos individuais e que nos tem sido inculcado pela mentalidade burguesa e liberal decorrente da Revolução Industrial, é, pois, no meu entender, uma das causas mais remotas e mais profundas da crise cultural generalizada (económica, política, ecológica, etc.) que assola a humanidade neste início do século XXI.



José Júlio Campos