A
crise tornou-se um tema incontornável nos dias que passam; é provável que
quanto mais falamos dela mais a acentuamos e mais real se torna em virtude da
sua interiorização. No entanto, assobiar para o lado como se ela não existisse
também não parece ser a atitude mais profícua para a ultrapassar, ou minimizar
os seus efeitos.
As
explicações para a crise nascem todos os dias, quase por geração espontânea,
quais cogumelos, ainda que venenosos a maior parte! Para uns, a origem da crise
é o desperdício, para outros é a corrupção; há quem pense que a culpa é do
capitalismo, outros contrapõem que é dos malandros que não querem trabalhar. As
explicações são tão diversificadas que até podem atingir as raias do anedótico,
como aquela que, há dias, brotou da mente iluminada de um político-comentador
televisivo ao afirmar que a própria banca estava em crise (abençoada crise que
lhe proporciona lucros escandalosos todos os anos) devido ao facto de ter de
acudir às necessidades do Estado. O facto indesmentível de a crise se ter
começado a desenhar quando o Estado teve de injectar milhares de milhões de
euros numa instituição bancária em vias de falir devido a gestão danosa
(corrupção) escapuliu-se dessa mente iluminada por artes mágicas ou demoníacas.
Assim como o que aconteceu de semelhante, em 2008, na economia americana, com a
falência de alguns bancos e a intervenção do Estado para salvar outros
juntamente com grandes empresas deles dependentes.
Este
género de episódios opinativos, aliás comuns no quotidiano mediático português,
mais não é do que o reflexo do nível politicamente baixo a que descemos;
prolifera a demagogia, a mentira, o oportunismo e escasseia a honestidade, o
amor à verdade, a coerência. No meio de tudo isto, valha-nos o facto de que, ao
contrário de quase tudo o resto, a opinião não pagar imposto! E mais vale um
chorrilho de opiniões disparatadas que podemos analisar criticamente, do que a
imposição de uma verdade oficial e dogmática a que todos tenhamos de aderir.
Assim
sendo, aproveito para opinar que uma das causas para a crise que vivemos e que
tende a tornar-se estruturante da sociedade actual é o individualismo promovido
e assimilado na nossa cultura ocidental. Efectivamente é o individualismo que
está na origem da ganância que leva ao roubo, à corrupção e à exploração de
outros seres humanos; é o individualismo que promove o oportunismo daqueles que
apenas consideram como sendo boas ou verdadeiras as acções ou opiniões que vão
de encontro aos seus interesses; é o individualismo que sustenta o egoísmo
daqueles que não se importam de destruir o planeta que vamos deixar para as
gerações vindouras, desde que as suas fábricas e empresas continuem a gerar
lucros desmesurados.
O
individualismo, que consiste no sacrifício dos interesses colectivos aos
individuais e que nos tem sido inculcado pela mentalidade burguesa e liberal
decorrente da Revolução Industrial, é, pois, no meu entender, uma das causas
mais remotas e mais profundas da crise cultural generalizada (económica,
política, ecológica, etc.) que assola a humanidade neste início do século XXI.
José
Júlio Campos