quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

CIDADANIA E ASSOCIATIVISMO

O associativismo é uma das formas mais nobres de exercer plenamente a cidadania. Trata-se, simultaneamente, de um direito reivindicado e reconhecido nas democracias contemporâneas e de um dever ético ao qual todos somos chamados em virtude da condição humana de ser social.
Durante grande parte da história das civilizações, as sociedades organizaram-se de forma tendencialmente autocrática e insensível aos chamados direitos individuais – a vida dos indivíduos estava totalmente nas mãos dos soberanos; apenas na Grécia Antiga, na cidade de Atenas, existiu, no século V a.C., o esboço de uma sociedade democrática, em que o indivíduo, embora sujeito a inúmeros requisitos, era considerado cidadão e ao qual eram reconhecidos alguns direitos como a participação directa na governação da cidade e a reunião na praça pública para exercer esse direito. O ser cidadão era uma condição necessária para usufruir de direitos individuais, mas conferia, também, um conjunto de deveres aos quais ninguém podia eximir-se. Esta correlatividade e implicação mútua entre direitos e deveres, que é apanágio das sociedades democráticas, só voltou a fazer-se sentir precisamente quando reapareceram regimes de matriz democrática, nomeadamente após e como consequência da Revolução Francesa, ocorrida no final do século XVIII.
Na actualidade, o direito de associação encontra-se consignado quer na Declaração Universal dos Direitos do Homem, quer nas leis constituintes da generalidade dos países democráticos, por ser um direito do cidadão tão fundamental como o direito à vida, à liberdade, à escolha dos governantes, à privacidade e outros. Assim sendo, o exercício total da cidadania passa, necessariamente, pelo usufruto dos direitos que lhe são inerentes. Mediante o contrato tacitamente estabelecido entre o cidadão e o Estado, este confere àquele o direito de se poder associar com os seus semelhantes com vista a atingir determinados objectivos; por sua vez, o cidadão deve usar desse direito de modo a poder contribuir para o bem-estar e progresso de toda a comunidade. Ter o direito de associação e não usufruir dele é como ter o direito de votar e abster-se, ter o direito de ser livre e vender a sua liberdade, ter o direito à vida e renunciar-lhe …
Por todas estas razões é forçoso concluir que todos nós somos chamados a participar na vida associativa das comunidades em que estamos inseridos. Trata-se de cumprir um dever que não pertence apenas a outros, reservando-nos, para nós, o papel de criticar. Aliás, verificamos que uma grande parte da população adopta esta postura negativista da crítica destrutiva e maledicente, feita em cafés e locais públicos, mas raramente nos lugares apropriados, contra uns poucos que, por mera carolice, continuam a sacrificar muito do seu bem-estar pessoal e familiar em prol do bem público. Esta crítica destrutiva é, em grande parte, responsável pelo desânimo desses poucos que se dedicam à vida associativa, bem como pelo afastamento de outros que preferem não se sujeitar a ela, contribuindo, deste modo, para o estado moribundo em que se encontra o associativismo.
Admitindo que possam haver alguns casos de ocupação oportunista de cargos associativos, saibamos separar o trigo do joio e reconhecer valor àqueles que cumprem, graciosamente, tarefas que competem a todos nós e cujas únicas recompensas são a consciência do dever cumprido e o reconhecimento público por parte dos seus concidadãos. É o mínimo que se nos exige na sociedade actual.


José Júlio Campos