segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

ANO NOVO, VALORES NOVOS!

Ao contrário do que é habitual, a entrada num novo ano não se afigura como um momento de felizes auspícios no que ao aspecto económico das nossas vidas diz respeito. Os tradicionais votos de próspero ano novo não podem deixar de soar a um estribilho bem intencionado, mas com poucas probabilidades de se concretizarem para a maioria da população.
O ano de 2011 vem sendo anunciado, desde há uns meses a esta parte, e sobretudo depois da aprovação do respectivo Orçamento de Estado, como o ano de todas as desventuras económicas: diminuição de salários, aumento de impostos, redução dos apoios sociais, recessão económica, ainda mais desemprego, … enfim, um autêntico Armagedon!
Perante este cenário não podemos deixar de nos sentir preocupados, não só pela dimensão da crise económica e financeira em que vivemos, mas também por duas outras razões muito importantes, sobretudo no plano psicológico. Uma delas tem a ver com o facto de, definitivamente, termos interiorizado que as políticas actuais já não garantem direitos adquiridos e irrevogáveis, nem regalias vitalícias no que se refere ao plano social das nossas vidas; (pior será quando este fenómeno alastrar a outros direitos humanos e constitucionais de natureza individual, como o direito à vida, à liberdade de expressão, de associação e de escolha dos governantes, por exemplo). A outra razão prende-se com a volatilidade das opiniões e afirmações do circo político e mediático – já não sabemos em quê ou em quem acreditar quando os políticos mudam de opinião à velocidade do TGV, ou quando alijam das suas costas todas as responsabilidades pelo estado em que nos encontramos; ou quando os comentadores e “opinion makers” tão depressa dizem que uma determinada medida se impõe, antes de ela ser imposta, como descascam nela, após a mesma ver a luz do dia; a facilidade com que hoje os responsáveis políticos e mediáticos dizem e se contradizem é algo tanto mais preocupante quanto mais se revela como uma forma hipócrita de manter os “jobs” à custa de uma grande tibieza e pusilanimidade de carácter.
E tudo isto acontece porque criámos um modelo social e político que tem vindo, paulatinamente, a instaurar uma total inversão de valores relativamente à nossa tradição humanista e racionalista com raízes no pensamento de Rousseau e Kant. Efectivamente, aquela rectidão de carácter que era apanágio de muitos dos nossos pais e avós tem vindo a ser trocada pelo acesso a uns “pratos de lentilhas”, ainda que à custa de salamaleques capazes de partir qualquer espinha ideológica; aliás, hoje, as ideologias estão mortas e enterradas a fazer fé no que apregoam os respectivos “gatos pingados” – é que não dá jeito nenhum depararmo-nos, na nossa consciência, com uns quantos valores e ideais políticos quando se elege, como primeiro objectivo na vida, a obtenção de riqueza ou notoriedade sem olhar a meios.
As trombetas da desgraça, anunciam, pois, um ano de 2011 terrível no plano económico. Claro que, para os mais carenciados, este é um aspecto essencial das suas vidas e não podemos desejar voltar ao tempo, ainda não muito longínquo, do “pobrete, mas alegrete” com que se embalava o povo. Impõe-se, pois, continuar a lutar por uma vida económica melhor, sem dúvida. Mas não podemos resumir a vida ao dinheiro, a um maior ou menor ordenado, a uns milhares a mais ou a menos de lucros na empresa.
Neste início de um novo ano, que a “vida nova” que se nos augura seja uma ocasião para reflectirmos sobre o tipo de sociedade em que queremos viver, sobre o modelo de pessoa que queremos ser e sobre aquilo que devemos mudar na nossa maneira de pensar e de agir para construirmos um mundo mais humano e mais justo.


José Júlio Campos