Ao
contrário do que é habitual, a entrada num novo ano não se afigura como um
momento de felizes auspícios no que ao aspecto económico das nossas vidas diz
respeito. Os tradicionais votos de próspero ano novo não podem deixar de soar a
um estribilho bem intencionado, mas com poucas probabilidades de se
concretizarem para a maioria da população.
O
ano de 2011 vem sendo anunciado, desde há uns meses a esta parte, e sobretudo
depois da aprovação do respectivo Orçamento de Estado, como o ano de todas as
desventuras económicas: diminuição de salários, aumento de impostos, redução
dos apoios sociais, recessão económica, ainda mais desemprego, … enfim, um
autêntico Armagedon!
Perante
este cenário não podemos deixar de nos sentir preocupados, não só pela dimensão
da crise económica e financeira em que vivemos, mas também por duas outras
razões muito importantes, sobretudo no plano psicológico. Uma delas tem a ver
com o facto de, definitivamente, termos interiorizado que as políticas actuais já
não garantem direitos adquiridos e irrevogáveis, nem regalias vitalícias no que
se refere ao plano social das nossas vidas; (pior será quando este fenómeno
alastrar a outros direitos humanos e constitucionais de natureza individual,
como o direito à vida, à liberdade de expressão, de associação e de escolha dos
governantes, por exemplo). A outra razão prende-se com a volatilidade das
opiniões e afirmações do circo político e mediático – já não sabemos em quê ou
em quem acreditar quando os políticos mudam de opinião à velocidade do TGV, ou
quando alijam das suas costas todas as responsabilidades pelo estado em que nos
encontramos; ou quando os comentadores e “opinion makers” tão depressa dizem
que uma determinada medida se impõe, antes de ela ser imposta, como descascam
nela, após a mesma ver a luz do dia; a facilidade com que hoje os responsáveis
políticos e mediáticos dizem e se contradizem é algo tanto mais preocupante
quanto mais se revela como uma forma hipócrita de manter os “jobs” à custa de
uma grande tibieza e pusilanimidade de carácter.
E
tudo isto acontece porque criámos um modelo social e político que tem vindo,
paulatinamente, a instaurar uma total inversão de valores relativamente à nossa
tradição humanista e racionalista com raízes no pensamento de Rousseau e Kant.
Efectivamente, aquela rectidão de carácter que era apanágio de muitos dos
nossos pais e avós tem vindo a ser trocada pelo acesso a uns “pratos de
lentilhas”, ainda que à custa de salamaleques capazes de partir qualquer
espinha ideológica; aliás, hoje, as ideologias estão mortas e enterradas a
fazer fé no que apregoam os respectivos “gatos pingados” – é que não dá jeito
nenhum depararmo-nos, na nossa consciência, com uns quantos valores e ideais
políticos quando se elege, como primeiro objectivo na vida, a obtenção de
riqueza ou notoriedade sem olhar a meios.
As
trombetas da desgraça, anunciam, pois, um ano de 2011 terrível no plano
económico. Claro que, para os mais carenciados, este é um aspecto essencial das
suas vidas e não podemos desejar voltar ao tempo, ainda não muito longínquo, do
“pobrete, mas alegrete” com que se embalava o povo. Impõe-se, pois, continuar a
lutar por uma vida económica melhor, sem dúvida. Mas não podemos resumir a vida
ao dinheiro, a um maior ou menor ordenado, a uns milhares a mais ou a menos de
lucros na empresa.
Neste
início de um novo ano, que a “vida nova” que se nos augura seja uma ocasião
para reflectirmos sobre o tipo de sociedade em que queremos viver, sobre o
modelo de pessoa que queremos ser e sobre aquilo que devemos mudar na nossa
maneira de pensar e de agir para construirmos um mundo mais humano e mais
justo.
José
Júlio Campos