sexta-feira, 26 de novembro de 2010

UM MILAGRE NO NATAL

O Natal é a época do ano que reúne um maior número de condimentos para se tornar especial – são as inúmeras canções melódicas que nos entram pelos ouvidos direitinhas ao coração; são as profusas e, por vezes, ridiculamente exageradas, iluminações de todas as formas e feitios; são as saborosas variedades gastronómicas, recordadas de geração em geração, e degustadas no doce recato do aconchego familiar; são, também, algumas outras coisas, umas mais genuínas, outras mais artificiais, umas mais reais, outras mais imaginárias como os contos à lareira, a neve nos telhados, o Pai Natal no seu trenó, a prenda no sapatinho, o Menino Jesus nas palhinhas, o pinheirinho enfeitado!...
Ultimamente, o Natal passou, também, a ser a época em que toda a gente troca prendas entre si – os familiares, os colegas de trabalho, os vizinhos, os amigos, os homens de negócios e os políticos e sabe-se lá quem mais … Antigamente as prendas eram só para as crianças e a sua dádiva ocorria, quase exclusivamente, no seio familiar; hoje, essa faceta do Natal generalizou-se, muito por culpa da propaganda comercial que está por trás da criação de uma série de necessidades artificiais que são a seiva do consumismo. A troca de prendas no Natal tornou-se num dos mais escandalosos oportunismos da máquina publicitária da economia capitalista contemporânea. É importante tomarmos consciência deste facto, mesmo que isso nos custe receber umas quantas “inutilidades” a menos nos próximos Natais!
Claro que não é fácil escapar à onda consumista, em que as pessoas exibem a sua mais suposta que real abastança na quantidade de carros exageradamente cheios com que saem dos supermercados; assim como não é fácil escapar à generalizada confusão entre a exibição dessa aparente abundância e aquela que é a verdadeira riqueza – a dos sentimentos e dos valores que devem alimentar-se no coração e com a razão.
Uma das consequências inevitáveis desta economia capitalista é a degradação do Estado Social a que assistimos, dramaticamente, nos dias que correm. Por sua vez, esse declínio do Estado Social implica que grande parte do papel assistencialista do Estado tenha que ser assumido por Instituições e Associações de Solidariedade Social que só sobrevivem com o apoio contínuo de todos nós. Ou seja, compete-nos a nós, cidadãos, assumir a responsabilidade pelo cuidado que a sociedade deve a órfãos, idosos, crianças abandonadas, deficientes e todos os desprotegidos da sorte cujo número e necessidades tendem a aumentar.
A hora é de reclamar do Estado a assistência obrigatória a todos os carenciados, apesar de sabermos que o Estado capitalista mais depressa socorre bancos em falência, ou buracos financeiros provocados por gestões ruinosas e corruptas. Mas a hora é, também, de darmos o nosso contributo para que essas instituições possam continuar a sua missão de solidariedade. Com o Estado e quem o governa devemos ajustar contas na altura das eleições. Neste Natal, saibamos, antes, ajustar contas com a nossa consciência – transformemos o desperdício, o excesso, o supérfluo, o luxuoso, a inutilidade da prendinha insignificante, numa dádiva, ainda que modesta, a uma das tantas instituições de solidariedade que lutam com grandes dificuldades para levar a cabo uma missão que nos compete a todos nós. Que o milagre que todos esperamos pelo Natal seja precisamente esse: transformar o consumismo em solidariedade.


José Júlio Campos