O Natal é a época
do ano que reúne um maior número de condimentos para se tornar especial – são
as inúmeras canções melódicas que nos entram pelos ouvidos direitinhas ao
coração; são as profusas e, por vezes, ridiculamente exageradas, iluminações de
todas as formas e feitios; são as saborosas variedades gastronómicas,
recordadas de geração em geração, e degustadas no doce recato do aconchego
familiar; são, também, algumas outras coisas, umas mais genuínas, outras mais
artificiais, umas mais reais, outras mais imaginárias como os contos à lareira,
a neve nos telhados, o Pai Natal no seu trenó, a prenda no sapatinho, o Menino
Jesus nas palhinhas, o pinheirinho enfeitado!...
Ultimamente, o Natal
passou, também, a ser a época em que toda a gente troca prendas entre si – os
familiares, os colegas de trabalho, os vizinhos, os amigos, os homens de
negócios e os políticos e sabe-se lá quem mais … Antigamente as prendas eram só
para as crianças e a sua dádiva ocorria, quase exclusivamente, no seio familiar;
hoje, essa faceta do Natal generalizou-se, muito por culpa da propaganda
comercial que está por trás da criação de uma série de necessidades artificiais
que são a seiva do consumismo. A troca de prendas no Natal tornou-se num dos
mais escandalosos oportunismos da máquina publicitária da economia capitalista
contemporânea. É importante tomarmos consciência deste facto, mesmo que isso
nos custe receber umas quantas “inutilidades” a menos nos próximos Natais!
Claro que não é
fácil escapar à onda consumista, em que as pessoas exibem a sua mais suposta
que real abastança na quantidade de carros exageradamente cheios com que saem
dos supermercados; assim como não é fácil escapar à generalizada confusão entre
a exibição dessa aparente abundância e aquela que é a verdadeira riqueza – a
dos sentimentos e dos valores que devem alimentar-se no coração e com a razão.
Uma das
consequências inevitáveis desta economia capitalista é a degradação do Estado
Social a que assistimos, dramaticamente, nos dias que correm. Por sua vez, esse
declínio do Estado Social implica que grande parte do papel assistencialista do
Estado tenha que ser assumido por Instituições e Associações de Solidariedade
Social que só sobrevivem com o apoio contínuo de todos nós. Ou seja, compete-nos
a nós, cidadãos, assumir a responsabilidade pelo cuidado que a sociedade deve a
órfãos, idosos, crianças abandonadas, deficientes e todos os desprotegidos da
sorte cujo número e necessidades tendem a aumentar.
A hora é de
reclamar do Estado a assistência obrigatória a todos os carenciados, apesar de
sabermos que o Estado capitalista mais depressa socorre bancos em falência, ou
buracos financeiros provocados por gestões ruinosas e corruptas. Mas a hora é,
também, de darmos o nosso contributo para que essas instituições possam
continuar a sua missão de solidariedade. Com o Estado e quem o governa devemos
ajustar contas na altura das eleições. Neste Natal, saibamos, antes, ajustar
contas com a nossa consciência – transformemos o desperdício, o excesso, o supérfluo,
o luxuoso, a inutilidade da prendinha insignificante, numa dádiva, ainda que
modesta, a uma das tantas instituições de solidariedade que lutam com grandes
dificuldades para levar a cabo uma missão que nos compete a todos nós. Que o
milagre que todos esperamos pelo Natal seja precisamente esse: transformar o
consumismo em solidariedade.
José
Júlio Campos