A identidade de um povo
constrói-se sobre a memória dos seus antepassados.
O mês de Novembro inicia-se com
os dias de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos que, marcados por cerimónias de
cariz religioso, são ocasião para todos, sem excepção, recordarmos os nossos
familiares ou amigos que, ao longo do tempo da nossa existência, se foram da
“lei da morte libertando”.
É, pois, de toda a justiça evocar
uma personalidade que marcou indelevelmente a vida de todos os aguiarenses, na
segunda metade do séc. XX, e que nos deixou há mais de dezassete anos:
refiro-me, como já terão percebido, ao Padre José Augusto da Fonseca
(1918-1993).
Para a geração com menos de
trinta anos, o Padre Fonseca não passa de uma figura arrumada nos cantos de uma
história sem contornos, onde se mistura indistintamente com outros que também
merecem ser “eternizados” em nomes de ruas ou em bustos de praças e rotundas.
Para as gerações mais idosas, o Padre Fonseca continua a ser, seguramente,
alguém que faz parte de uma memória viva e em relação ao qual todos nutrirão,
com maior ou menor intensidade, um sentimento de saudade, admiração e,
sobretudo, gratidão pela obra realizada em Aguiar da Beira.
Dessa vastíssima obra é de
realçar a criação e dinamização do Projecto de Auto-construção que permitiu a
muitos jovens casais da nossa terra, em início de vida nos anos cinquenta,
construírem a sua própria habitação, mesmo dispondo de poucos meios para além
dos braços para trabalhar. Outra obra essencial para o progresso de Aguiar da
Beira foi a fundação do Colégio, no final dos anos sessenta, e a consequente
possibilidade de os jovens poderem continuar os seus estudos, além da 4ª
classe, sem necessitarem de sair para cidades como Viseu, algo apenas ao
alcance dos muito abastados. Ainda no que ao ensino diz respeito, foi também
graças ao Padre Fonseca que o ensino oficial deu os primeiros passos e se
implementou em Aguiar da Beira – primeiro, alugando ao Ministério da Educação
as instalações onde funcionou, durante muitos anos, a Escola Preparatória; mais
tarde, no início da década de noventa, cedendo gratuitamente os terrenos
necessários para a construção da actual Escola Básica e Secundária, sede do
Agrupamento de Escolas de Aguiar da Beira.
Para além de ser um homem de
grande iniciativa e visão de futuro, o Padre Fonseca era, também, dotado de um
grande sentido de gestão sóbria e equilibrada, qualidades que lhe permitiram
alicerçar uma obra de que, ainda hoje, muitos beneficiam.
Assim, neste mês de Novembro em
que recordamos os nossos antepassados, e quando nos aproximamos, paulatinamente,
do Centenário do seu nascimento, é da mais elementar justiça recordar essa
figura maior do nosso Concelho que, ainda hoje, pode e deve ser apontada aos
jovens como modelo de empreendedorismo. Para isso é necessário que a sua
memória perdure e o seu exemplo não se desvaneça nas brumas do esquecimento;
com esse objectivo lanço, aqui, um repto a quem de direito – Paróquia ou
Autarquia de Aguiar da Beira: para quando a elaboração e publicação de uma
biografia do Padre Fonseca que possa contribuir para o dar a conhecer aos nossos
jovens e manter vivo o seu exemplo na nossa comunidade?
José Júlio Campos