sexta-feira, 24 de setembro de 2010

UM NOSSO VIZINHO, AQUILINO, E A INSTAURAÇÃO DA REPÚBLICA

Comemorando, neste mês de Outubro, o Centenário da Instauração da República, importa realçar a vivência deste acontecimento por parte de um grande escritor e homem de cultura do séc. XX, Aquilino Ribeiro, cuja infância e adolescência está ligada aos concelhos vizinhos de Sernancelhe, Moimenta e Vila Nova de Paiva, tendo nascido em Carregal de Tabosa e tendo estudado no Colégio da Lapa.
Aquilino foi, de facto, um republicano convicto e um dos que, no início do séc. XX, se bateram pela proliferação dos ideais republicanos e pela desacreditação pública de uma monarquia cansada, dividida e incapaz de apresentar soluções credíveis para os problemas do país. Essa luta foi levada a cabo nos meios à época disponíveis: panfletos, alguns jornais e, sobretudo, nas tertúlias. (Nesse tempo ainda não havia blogs!...)
Hoje, é possível ter um acesso pormenorizado a essa época inesquecível da história de Portugal, pois, por ser ainda relativamente recente, encontra-se muito bem documentada. No entanto, uma simples incursão na obra de Aquilino Ribeiro é suficiente para obtermos uma panorâmica riquíssima da vida, dos ideais, dos acontecimentos, dos murmúrios, dos boatos, das tentativas falhadas, das prisões e interrogatórios, enfim, de toda a realidade vivida pelos protagonistas da história dessa época. E Aquilino é precisamente um desses protagonistas, e, por consequência, uma voz habilitada que descreve figuras e acontecimentos ao jeito de uma ficção baseada em acontecimentos reais como hoje se usa no cinema.
Lápides partidas é um romance de sabor autobiográfico e sequencial a outro, Via sinuosa. Se, neste, Aquilino romanceia a sua infância nas “terras do demo”, naquele ficciona a sua juventude na Lisboa revolucionária do princípio do séc. XX. Em Lápides partidas, Aquilino conta episódios da sua vida e do seu “engagement” revolucionário na personagem de Libório Barradas. O ambiente em que decorre a acção é o período que antecedeu o Regicídio, em 1908, na cidade de Lisboa. Libório Barradas faz parte de um grupo de republicanos activos que conspira contra o poder estabelecido da monarquia, e que vai, de forma mais arrebatada do que organizada, conduzir ao assassinato do rei D. Carlos, no seu regresso de Vila Viçosa.
A págs. 335 de Lápides partidas, edição da Livraria Bertrand, publicada em 1969, podemos surpreender o Bemposta confidenciando a Libório alguns pormenores da conjura: “ – Amigo, foi o que se pôde arranjar. Vamos esperá-lo lá para as Avenidas Novas; se o não pilhamos ali, pilhamo-lo pela certa no Terreiro do Paço quando desembarque de Vila Viçosa a família real. E então atiramos ao monte.” Referia-se, segundo parece, a João Franco, alcunhado no romance e aí referenciado por Bemposta como Pedro de Malas Artes. E a parte substancial da narrativa, até ao final do romance, consiste na descrição dos funestos acontecimentos de 1 de Fevereiro de 1908, tal como Libório Barradas (Aquilino) os terá vivido numa casa para os lados da Rua do Salitre, a meio da Avenida da Liberdade, onde se encontrava escondido da polícia. Na maravilhosa escrita aquiliniana, vemos o tumulto subindo as ruas, alastrando de beco em beco, desde a baixa pombalina, qual ventania nas asas da inacreditável novidade – “Mataram o rei”.
Há também outras obras de Aquilino Ribeiro, como Um escritor confessa-se onde a implantação da República é tema importante.
Aproveitemos a passagem desta efeméride para recordar este grande homem das letras e do pensamento e estimular os jovens para a leitura da sua obra; será, seguramente, uma descoberta maravilhosa.  


José Júlio Campos