Comemorando, neste mês de Outubro, o Centenário da Instauração da
República, importa realçar a vivência deste acontecimento por parte de um
grande escritor e homem de cultura do séc. XX, Aquilino Ribeiro, cuja infância
e adolescência está ligada aos concelhos vizinhos de Sernancelhe, Moimenta e
Vila Nova de Paiva, tendo nascido em Carregal de Tabosa e tendo estudado no
Colégio da Lapa.
Aquilino foi, de facto, um republicano convicto e um dos que, no início do
séc. XX, se bateram pela proliferação dos ideais republicanos e pela
desacreditação pública de uma monarquia cansada, dividida e incapaz de
apresentar soluções credíveis para os problemas do país. Essa luta foi levada a
cabo nos meios à época disponíveis: panfletos, alguns jornais e, sobretudo, nas
tertúlias. (Nesse tempo ainda não havia blogs!...)
Hoje, é possível ter um acesso pormenorizado a essa época inesquecível da
história de Portugal, pois, por ser ainda relativamente recente, encontra-se muito
bem documentada. No entanto, uma simples incursão na obra de Aquilino Ribeiro é
suficiente para obtermos uma panorâmica riquíssima da vida, dos ideais, dos
acontecimentos, dos murmúrios, dos boatos, das tentativas falhadas, das prisões
e interrogatórios, enfim, de toda a realidade vivida pelos protagonistas da
história dessa época. E Aquilino é precisamente um desses protagonistas, e, por
consequência, uma voz habilitada que descreve figuras e acontecimentos ao jeito
de uma ficção baseada em acontecimentos reais como hoje se usa no cinema.
Lápides partidas é um romance de sabor
autobiográfico e sequencial a outro, Via
sinuosa. Se, neste, Aquilino romanceia a sua infância nas “terras do demo”,
naquele ficciona a sua juventude na Lisboa revolucionária do princípio do séc.
XX. Em Lápides partidas, Aquilino
conta episódios da sua vida e do seu “engagement” revolucionário na personagem
de Libório Barradas. O ambiente em que decorre a acção é o período que
antecedeu o Regicídio, em 1908, na cidade de Lisboa. Libório Barradas faz parte
de um grupo de republicanos activos que conspira contra o poder estabelecido da
monarquia, e que vai, de forma mais arrebatada do que organizada, conduzir ao
assassinato do rei D. Carlos, no seu regresso de Vila Viçosa.
A págs. 335 de Lápides partidas,
edição da Livraria Bertrand, publicada em 1969, podemos surpreender o Bemposta
confidenciando a Libório alguns pormenores da conjura: “ – Amigo, foi o que se
pôde arranjar. Vamos esperá-lo lá para as Avenidas Novas; se o não pilhamos
ali, pilhamo-lo pela certa no Terreiro do Paço quando desembarque de Vila
Viçosa a família real. E então atiramos ao monte.” Referia-se, segundo parece,
a João Franco, alcunhado no romance e aí referenciado por Bemposta como Pedro
de Malas Artes. E a parte substancial da narrativa, até ao final do romance,
consiste na descrição dos funestos acontecimentos de 1 de Fevereiro de 1908,
tal como Libório Barradas (Aquilino) os terá vivido numa casa para os lados da
Rua do Salitre, a meio da Avenida da Liberdade, onde se encontrava escondido da
polícia. Na maravilhosa escrita aquiliniana, vemos o tumulto subindo as ruas,
alastrando de beco em beco, desde a baixa pombalina, qual ventania nas asas da
inacreditável novidade – “Mataram o rei”.
Há também outras obras de Aquilino Ribeiro, como Um escritor confessa-se onde a implantação da República é tema
importante.
Aproveitemos a passagem desta efeméride para recordar este grande homem das
letras e do pensamento e estimular os jovens para a leitura da sua obra; será, seguramente,
uma descoberta maravilhosa.
José Júlio Campos