Proponho que façamos uma breve reflexão sobre a
importância da festa popular na nossa cultura, portuguesa e ocidental. Podendo
essa festa assumir várias formas, foquemo-nos na nossa tradicional festa da
aldeia, algo que é comum a todo o País, de Norte a Sul, até às Ilhas. Procurar
a origem dessas festas levar-nos-ia até tempos imemoriais e práticas ancestrais
de carácter mítico-religioso; não sendo esse o objectivo deste pequeno
apontamento, diríamos, apenas, que a festa era uma prática que já assumia um
carácter fundamental na vida de um dos povos fundadores da nossa civilização –
a Grécia.
Esta referência histórica permitir-nos-á, desde
logo, evidenciar a importância que a festa tem tido e continua a ter na vida
das pessoas. Pretendia, no entanto, salientar outros dois factores que, a meu
ver, ajudam a compreender a transversalidade sócio-cultural e a perenidade
histórica deste fenómeno.
Olhando para a forma de organização das nossas
festas populares verificamos que, apesar das diversidades regionais, a sua
estrutura organizativa varia entre a Comissão de Festas institucionalizada, até
mesmo com estatutos publicados, e um número variável de mordomos, nomeados
anual ou plurianualmente, sob a forma de passagem de testemunho, obedecendo a
um conjunto de regras de natureza tácita e consuetudinária. Esta última é,
aliás, por ser a mais antiga, a forma também mais genuína e, até, fundacional
da primeira. Importante é reter que, seja qual for o modelo organizativo
seguido, a ideia que lhe subjaz apresenta um carácter marcadamente de cariz
associativista. São os cidadãos, as pessoas, que, de forma aleatória e
consensual, se agrupam com um objectivo concreto: fazer a festa. Curiosamente,
na sua forma mais tradicional, os mordomos, ao nomearem-se, consecutiva e
rotativamente por todos os elementos da aldeia, funcionam como a voz do povo.
Eles são investidos do poder de fazer a festa e decidir sobre ela, assim como o
de escolher os seus sucessores; único critério: passar por todos. Até neste
aspecto podemos verificar um papel muito importante da festa como fenómeno
popular – o facto de ser uma actividade inclusiva e de compromisso social
(aquilo a que também chamamos cidadania). Inclusiva, porque ninguém ficava de
fora, ninguém era considerado incapaz para tal tarefa, embora pudesse haver,
(sensatamente, aliás) combinações de pessoas com características pessoais e
sociais diferentes. De compromisso social porque era uma obrigação de todos,
ninguém podia pôr-se de fora, sob pena de severa crítica e até marginalização.
Ou seja, assentava num verdadeiro apelo à associação entre pessoas, à
participação voluntária na vida da comunidade.
Finalmente, um outro factor não menos decisivo na
justificação da importância da festa popular é o seu papel catártico e
religioso, no sentido mais lato da palavra. Desde a sua origem que a festa
esteve associada a rituais religiosos que visavam exorcizar demónios (símbolos
de todos os males e doenças), ou implorar a protecção dos deuses (símbolos do
bem e do bem-estar para o homem).
Ou seja, o homem acreditava e continua a acreditar,
apesar da cada vez maior laicização das festas populares, que a festa é uma
oportunidade de se relacionar com o sagrado, de produzir no espaço profano uma
manifestação do sagrado, aquilo que se chama uma hierofania. E, através destas
hierofanias, o homem acredita que pode conseguir o beneplácito, a ajuda, ou o
perdão dos deuses. Esta dimensão da festa, estando já presente na festa popular
grega, foi reforçada significativamente com a introdução do cristianismo na
cultura ocidental. E permaneceu dominante até hoje.
Mas a festa serve, ainda, de uma forma mais
prosaica, para desanuviar as dores e as canseiras quotidianas; para aliviar o
fardo de um ano de trabalho diário e sem férias como é, tradicionalmente, o
trabalho do campo; para colorir dias rotineiros e monótonos. Este aspecto faz,
também, com que a festa leve, por vezes, a consequências menos agradáveis, como
são todos os excessos a ela associados, nomeadamente os da gastronomia e da bebida.
É um aspecto que, à luz de uma determinada moral, pode ser considerado menos
positivo, mas que, curiosamente, também faz parte da raiz matricial da festa;
os exageros praticados nas festas báquicas da Antiga Grécia são lendários
porque bem reais.
É por todas estas razões que a festa continua a
assumir uma tão grande importância na vida das pessoas e dos povos, sendo um
dos fenómenos culturais mais antigos da nossa civilização; esta importância
mantém-se, maugrado as transformações que a festa tem vindo a sofrer, fruto do
progresso e evolução a que a cultura dos povos naturalmente está sujeita com o
passar dos tempos.
Por tudo isto e porque, segundo a sabedoria
popular, tristezas não pagam dívidas, continuemos a fazer festas e a fazer das
festas momentos importantes da nossa vida!
José Júlio Campos