quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A IMPORTÂCIA DA FESTA POPULAR

Proponho que façamos uma breve reflexão sobre a importância da festa popular na nossa cultura, portuguesa e ocidental. Podendo essa festa assumir várias formas, foquemo-nos na nossa tradicional festa da aldeia, algo que é comum a todo o País, de Norte a Sul, até às Ilhas. Procurar a origem dessas festas levar-nos-ia até tempos imemoriais e práticas ancestrais de carácter mítico-religioso; não sendo esse o objectivo deste pequeno apontamento, diríamos, apenas, que a festa era uma prática que já assumia um carácter fundamental na vida de um dos povos fundadores da nossa civilização – a Grécia.
Esta referência histórica permitir-nos-á, desde logo, evidenciar a importância que a festa tem tido e continua a ter na vida das pessoas. Pretendia, no entanto, salientar outros dois factores que, a meu ver, ajudam a compreender a transversalidade sócio-cultural e a perenidade histórica deste fenómeno.
Olhando para a forma de organização das nossas festas populares verificamos que, apesar das diversidades regionais, a sua estrutura organizativa varia entre a Comissão de Festas institucionalizada, até mesmo com estatutos publicados, e um número variável de mordomos, nomeados anual ou plurianualmente, sob a forma de passagem de testemunho, obedecendo a um conjunto de regras de natureza tácita e consuetudinária. Esta última é, aliás, por ser a mais antiga, a forma também mais genuína e, até, fundacional da primeira. Importante é reter que, seja qual for o modelo organizativo seguido, a ideia que lhe subjaz apresenta um carácter marcadamente de cariz associativista. São os cidadãos, as pessoas, que, de forma aleatória e consensual, se agrupam com um objectivo concreto: fazer a festa. Curiosamente, na sua forma mais tradicional, os mordomos, ao nomearem-se, consecutiva e rotativamente por todos os elementos da aldeia, funcionam como a voz do povo. Eles são investidos do poder de fazer a festa e decidir sobre ela, assim como o de escolher os seus sucessores; único critério: passar por todos. Até neste aspecto podemos verificar um papel muito importante da festa como fenómeno popular – o facto de ser uma actividade inclusiva e de compromisso social (aquilo a que também chamamos cidadania). Inclusiva, porque ninguém ficava de fora, ninguém era considerado incapaz para tal tarefa, embora pudesse haver, (sensatamente, aliás) combinações de pessoas com características pessoais e sociais diferentes. De compromisso social porque era uma obrigação de todos, ninguém podia pôr-se de fora, sob pena de severa crítica e até marginalização. Ou seja, assentava num verdadeiro apelo à associação entre pessoas, à participação voluntária na vida da comunidade.
Finalmente, um outro factor não menos decisivo na justificação da importância da festa popular é o seu papel catártico e religioso, no sentido mais lato da palavra. Desde a sua origem que a festa esteve associada a rituais religiosos que visavam exorcizar demónios (símbolos de todos os males e doenças), ou implorar a protecção dos deuses (símbolos do bem e do bem-estar para o homem).
Ou seja, o homem acreditava e continua a acreditar, apesar da cada vez maior laicização das festas populares, que a festa é uma oportunidade de se relacionar com o sagrado, de produzir no espaço profano uma manifestação do sagrado, aquilo que se chama uma hierofania. E, através destas hierofanias, o homem acredita que pode conseguir o beneplácito, a ajuda, ou o perdão dos deuses. Esta dimensão da festa, estando já presente na festa popular grega, foi reforçada significativamente com a introdução do cristianismo na cultura ocidental. E permaneceu dominante até hoje.
Mas a festa serve, ainda, de uma forma mais prosaica, para desanuviar as dores e as canseiras quotidianas; para aliviar o fardo de um ano de trabalho diário e sem férias como é, tradicionalmente, o trabalho do campo; para colorir dias rotineiros e monótonos. Este aspecto faz, também, com que a festa leve, por vezes, a consequências menos agradáveis, como são todos os excessos a ela associados, nomeadamente os da gastronomia e da bebida. É um aspecto que, à luz de uma determinada moral, pode ser considerado menos positivo, mas que, curiosamente, também faz parte da raiz matricial da festa; os exageros praticados nas festas báquicas da Antiga Grécia são lendários porque bem reais.
É por todas estas razões que a festa continua a assumir uma tão grande importância na vida das pessoas e dos povos, sendo um dos fenómenos culturais mais antigos da nossa civilização; esta importância mantém-se, maugrado as transformações que a festa tem vindo a sofrer, fruto do progresso e evolução a que a cultura dos povos naturalmente está sujeita com o passar dos tempos.
Por tudo isto e porque, segundo a sabedoria popular, tristezas não pagam dívidas, continuemos a fazer festas e a fazer das festas momentos importantes da nossa vida!


José Júlio Campos